Contos ou Delírios?




Quarta-feira, Outubro 10, 2007

O Apartamento 7

Isabella arrumou seu cabelo e olhou-se no espelho pela milésima e última vez: As pupilas dilataram-se dentro dos olhos verdes, tentado enxergar os detalhes que a penumbra daquele aposento escondia. A luz das velas dava um tom quase vampírico ao seu longo cabelo negro, em contraste com a pele muito clara.
Ainda não sabia o que estava fazendo ali. Era loucura, ela sabia, mas mesmo assim estava ansiosa para que acontecesse logo.
Aquele seria o encontro mais estranho que já tivera em sua vida... e também o mais misterioso, mais emocionante, mais potencialmente perigoso...
Mas também poderia ser o melhor de todos...

O apartamento ainda estava vazio. Ela e sua mania de chegar adiantada!
Arrumou por uma última vez o decote do vestido branco e mais uma vez se sensurou por ter escolhido aquela roupa! Não era apropriada! Devia ter escolhido algo mais sensual... aquele vestido branco, com seu tecido leve e seu corte angelical a fazia parecer uma virgem assustada. Nem de perto lembrava a mulher experiente, sexy e decidida que ela queria parecer naquela noite.

Soltou um suspiro resignado e caminhou até a varanda, para esperar. Agora não havia mesmo como voltar atrás.

Edgar sorriu satisfeito para seu reflexo no espelho.
Experiente e confiante, a facilidade com que conseguia levar as mulheres mais lindas que via para a cama chegava quase a aborrecê-lo. Na maioria das vezes elas não eram nem de longe tão boas quanto em sua imaginação e os momentos de prazer passavam rapidamente para um aborrecimento profundo.
Por isso ele havia resolvido, há algum tempo atrás, experimentar novas formas de fazer amor, buscando na novidade parte da excitação que a facilidade havia lhe roubado.

Já havia feito muitas coisas nessa sua busca por ocasiões diferentes: Os mais variados tipos de encontros, com os mais variados números de participantes, com as mais variadas belezas femininas.
Não tinha muitas restrições morais, mas uma exigência pessoal ele nunca transgredia: Só fazia amor com mulheres maiores de idade e que estivessem com ele por vontade própria.
Recusava-se a pagar ou forçar algo que tanto gostava de conquistar por empenho próprio.

Entrou em seu carro, dirigiu-se para o local combinado, ainda com um sorriso no rosto. Há muito tempo não tinha conhecimento de uma idéia tão original e interessante quanto a do Apartamento 7.
Essa seria uma boa noite. Ele podia pressentir isso.

Isabella torcia as mãos de nervosismo. Por duas ou três vezes pensou em pegar a bolsa e ir embora, mas a lembrança de seu apartamento vazio e de sua vida tão vazia quanto a fizeram ficar.

Os poucos minutos pareceram uma eternidade mas então ela ouviu o barulho da chave na fechadura e seu sangue gelou imediatamente: Ele havia chegado.

Edgar abriu a porta do apartamento 7 demorou um pouco para acostumar seus olhos à penumbra.
Como lhe havia sido dito, não haviam lâmpadas. Todo o local era iluminado unicamente por velas.
Também como lhe havia sido dito, havia um aparelho de som (ele precisava levar de casa o cd que queria escutar), um vinho de excelente safra e uma caixa de chocolates sobre a mesa.
E também como lhe havia sido dito: haveria uma belíssima e desconhecida mulher esperando por ele.
A moça virou-se para ele assim que abriu a porta. O vento soprava seu vestido branco e seu cabelo, fazendo que ele tivesse a breve impressão de que ela acabara de chegar voando pela varanda.

Ela estava insegura. Ele percebeu imediatamente. O sorriso fácil e satisfeito com que suas "blind dates" costumavam recebê-lo não estava em seu rosto. Ela o examinava séria, um pouco constrangida, um pouco desconfiada. Talvez pensando em desistir de tudo e ir imediatamente pra casa.
Ele gostou disso.

Edgar entrou com seu passo confiante, sem voltar a olhar para a moça na janela. Colocou o cd que havia escolhido e uma voz sensual encheu o apartamento, cantando num idioma desconhecido.

Isabella permanecia paralisada, agora ainda mais arrependida do que antes de estar ali. Olhou de relance para a bolsa e se imaginou simplesmente saindo pela porta, sem trocar uma palavra com aquele desconhecido. Mas ao invés de fazer isso, ficou apenas observando enquanto ele, de costas para ela, abria a garrafa de vinho.

Edgar serviu as duas taças, tirou sua jaqueta e a colocou sobre o encosto da cadeira e depois caminhou para a varanda.

- Então você é a misteriosa Isabella. - Disse ele, olhando em seus olhos, mas sem sorrir e oferecendo para a moça uma das taças.
- Você sabe o meu nome? - Perguntou ela surpresa, aceitando a taça.
- Sim. - Respondeu ele, sem dar mais informações, e tomou um gole do vinho, com os olhos fixos nos dela.
- Eu não fui informada sobre o seu nome - Disse ela, um tanto confusa.
- Eu sei disso. - Respondeu Edgar outra vez.

Isabella ia dizer mais alguma coisa, mas ele a tomou pela mão, com um sorriso nos olhos.
Ela o seguiu e os dois começaram a conhecer juntos os outros aposentos do apartamento.

A sala em que estavam terminava em uma cozinha americana, que tinha ao fundo uma escada para subir à cobertura. Mas Edgar optou pelo um corredor à esquerda.

Todo o apartamento era forrado por um tapete macio e espesso numa cor próxima ao laranja. O corredor que seguiam tinha duas portas:
A primeira era a porta do quarto, que tinha uma imensa cama com lençóis num tom marfim e ladeada por dois exuberantes castiçais de prata.
As velas que queimavam neles davam às bordas da cama um brilho dourado que transmitia uma mensagem clara: DESEJO.
O teto sobre a cama era de vidro e podia-se ver o céu estrelado do lado de fora. Isabella quase perdeu o fôlego quando viu a beleza do aposento, mas Edgar, sem dizer uma palavra, a conduziu pela mão para fora do quarto.

Outra porta do corredor era um banheiro: Com uma imensa banheira de hidromassagem toda em mármore. Espelhos por todos os lados, refletindo as chamas das velas e as pétalas de flores do campo espalhadas pelo chão. Isabella achou esse aposento ainda mais bontio do que o quarto, mas outra vez, Edgar a levou de volta para o corredor.

Os dois atravessaram outra vez a sala e subiram as escadas, em direção à cobertura.
- Você já veio aqui antes? - Perguntou Isabella, enquanto subiam as escadas.
- Não. - Respondeu Edgar.

Isabella continuou subindo os degraus, mas começava a ficar incomodada com o silêncio de seu parceiro.
Por que ele era tão rápido em suas respostas? Por que não estava tentando puxar assunto, quebrar o gelo...
Será que ele estava decepcionado? Será que esperava uma mulher mais bonita? Mais... sexy?
Isabella sentiu uma imensa vergonha: estava fazendo papel de boba! É claro que aquele tipo de encontro não era para pessoas como ela: tímidas, inseguras, pouco experientes.
Esse era o tipo de programa para pessoas resolvidas, seguras, experientes e atrevidas... Ela nunca havia sido nada daquilo!! Não devia estar aqui e esse homem á sua frente já tinha percebido isso!
Que vergonha!

A cobertura estava fresca e bem iluminada. Havia uma piscina e uma espécie de pirâmide de vidro que se levantava do chão e através da qual se podia ver o quarto, lá embaixo.

Edgar a levou para perto da mureta de vidro.
Ela distraiu-se por uma fração de segundos com a beleza da vista e quando olhou para ele novamente viu que ele olhava fixamente para ela, com aquele mesmo sorriso no olhar que parecia estar dizendo alguma coisa que ela não conseguia entender:

- O que está olhando? - Perguntou ela, abaixando os olhos.
- Estou tentando olhar, mas não consigo. - Disse ele, levantando o queixo dela com a mão, para que seus olhos se encontrassem de novo.
- Tentando olhar o que? - Disse Isabella, dessa vez olhando para os olhos dele.
- Olhar dentro de você. Pra ver se entendo.
- Se entende???
- Se entendo o que você está fazendo aqui.
- Eu estava agora mesmo me fazendo essa pergunta - Respondeu ela, corando da cabeça aos pés.
- E então?
- Ainda não achei a resposta. Eu... me sinto meio estúpida...
- O que você está fazendo aqui, Isabella?
- Eu não sei... acho... que me tenho me sentido muito sozinha.
- Esse não parece o seu método preferido de conhecer novas pessoas...
- Eu... tenho um pouco de dificuldade em conhecer novas pessoas...
- Você é uma mulher linda. Não deve ser difícil encontrar em qualquer lugar algum homem disposto a sair com você. Porque não tentou lugares mais fáceis como ambientes conhecidos, bares, restaurantes, boates...?
- Porque... - Isabella pensou um pouco e respondeu, decidida - Porque não tem graça.

Edgar sorriu, parecendo satisfeito com o que tinha ouvido, e tomou mais um gole de vinho.
Isabella dessa vez bebeu também e olhou em volta, imaginando que aquela piscina talvez fosse o lugar perfeito para fazer amor com aquele desconhecido.

Mas Edgar a pegou pela mão e a conduziu escada abaixo novamente.

Assim que chegaram ao fim da escada, Edgar parou de frente para Isabela. Ele pôs as duas mãos em volta de seus ombros e foi descendo, contornado seu corpo lentamente: ombros, seios, cintura, quadris - Isabella sentiu um arrepio percorrer seu corpo - coxas.
Ele agora estava de joelhos - pernas, tornozelos e finalmente as mão dele chegaram aos seu pés, descalçando cuidadosamente suas sandálias. Ainda de joelhos, ele pegou a mão direita dela, beijou e se levantou.
Ela o seguiu em direção à varanda, pisando no tapete macio e felpudo a seus pés.

Sob a luz das velas e os raios de lua que entravam pela varanda aberta, ele tomou a taça da mão dela e colocou sobre o parapeito.
Então, com sua mão direita, tocou o rosto de Isabella. Acariciou por alguns instantes sua boca e enquanto a mão esquerda já soltava uma das alças do vestido branco.
Sua mão direita desceu para o decote, soltando a outra alça e vestido deslizou suavemente pelo corpo de Isabella, caindo como uma folha de outono sobre o carpete.

Isabella permaneceu parada, entregue às carícias daquele desconhecido. O constrangimento inicial havia desaparecido totalmente e agora dava lugar a uma excitação crescente, que ela jamais havia experimentado. Edgar tocou seus seios e acariciou, até encontrar o ponto mais sensível, fazendo-a estremecer.
Ele continuou tateando seu corpo.
Desceu as duas mãos até sua cintura e então ajoelhou-se outra vez e beijou seu umbigo. Os beijos continuavam leves em torno de sua cintura enquanto as mãos dele retiravam a última peça que faltava...

Algum ruído fez com que seus olhos se abrisse na manhã seguinte.
Ela não estava mais na varanda e havia uma pirâmide de vidro sobre sua cama, fazendo com que cores alegres dançassem com a entrada do sol pelas paredes do aposento. Ela ainda se sentia num conto de fadas. Por um momento teve vontade de recolher todas aquelas gotas luz das paredes e levá-las na bolsa para sua casa.
Como exigiam as regras do Apartamento 7, não havia mais um braço à sua volta, porém ela estava coberta de pétalas de flores e um breve bilhete abaixo do travesseiro dizia: “Agora sou eu quem sei exatamente o vim fazer aqui.”
Ela se levantou, tomou um banho quente e, antes de sair, assinalou a opção “sim” num papel que estava sobre a mesa.

Edgar chegou em casa com a sensação de que havia vivido algo realmente especial e embora sempre conseguisse abstrair essa sensação para evitar um interesse maior pelas pessoas, dessa vez ele simplesmente não conseguia parar de pensar em Isabella. E pior: estava decidido a encontrá-la de novo.
Ele tomou um banho e sentou-se no sofá. Não queria ficar relembrando a noite perfeita que tivera e também não queria ficar suspirando, fazendo planos futuros... queria apenas aguardar tranqüilamente o desenrolar dos acontecimentos.
Pegou o cd que havia escutado na noite passada e colocou pra tocar. Recostou a cabeça na poltrona e ficou ouvindo de olhos fechados até que de repente algumas notas diferentes invadiram seus ouvidos.
Ainda de olhos fechados, ele sorriu e atendeu o telefone.

Publicado por HEIDI COSTA às 1:29 AM

Quantos delírios?:



Sexta-feira, Maio 04, 2007

Correu e saltou.

Acreditava que se pudesse cair do alto, se pudesse realmente realmente ser livre de qualquer contato que não fosse o seu corpo e o ar, então, naqueles breves momentos de queda livre, de vôo negativo, de fatalidade extrema, conseguiria finalmente senitr, compreender, acreditar e ser.
Ser sem as limitações do mundo. Ser o que se é, independente do que impede o ser e os movimentos. Apenas saber o que se quer ser, sem as impossibilidades do chão.
Acreditar sem tocar, sem saber, sem medir.
Compreender sem precisar exprimir (as palavras também são uma limitição).
E principalmente sentir. Sentir sem os estímulos, sem as manipulações cotidianas que de tão presentes já nem se fazem mais perceber. Sentir sem os olhos, sem as mãos sem intenção nenhuma sentir simplesmente pela extraodinãria capacidade de se ter um coração. Sentir com a sinceridade pura do inconsciente, da ignorancia do destino, da despretensão.
Se pudesse simplesmente exitir num vácuo profundo de finalidades, seria cercado apenas por sentimentos. Sentimentos que carregariam seu corpo, que guiariam ou precipitariam seus ossos, que esmagariam ou revestiriam seus músculos e que finalmente seriam perfeitamente compreendidos.
Não era o tempo que importava! Não haveria consequencias a lidar, não haveriam decisões e soluções práticas a se tomar. Nada que pudesse alterar ou influenciar no seu rápido julgamento. Ele simplesmente teria todas as repostas que desesperavam tanto seu espírito.

Correu e saltou.
Havia esperado o dia certo.
Devia haver muito vento. Quanto mais forte, mas violento e mais impetuoso, melhor.
Não que ele tivesse medo do chão. Sabia que aquele era seu destino e não tinha intenção nenhuma de evitá-lo, mas queria o máximo que pudesse aproveitar das respostas que teria naquela noite.
E a tempestade finalemte havia chegado, como um anúncio de que seu destino lhe dizia sim.
Depois de tantos dias no frio daquela que era a montanha mais alta que já havia escalado, finalmente a devastação da natureza trazio o convite de seguir em frente.
Lá embaixo as árvores lutavam apenas para se manter presas ao solo (such a waste of time!) muitas delas já tinham sido derrotadas nesa batalha, mas ainda assim, de alguma forma, pareciam tentar resistir.
Do outro lado, as ondas pareciam compartilhar de seu mesmo desejo. Entregavam-se ao vento como se pudessem mesmo ser levadaspara outro lugar. Na verdade elas realmente iam longe! Às vezes pareciam até voar!
O vento brincava com elas, jogando-as de um lado para o outro e elas agradeciam com a única beleza que sabiam: espuma! era óbvio que estavam felizes! Era óbvio que desejavam seguir com aquele tornado para onde quer que ele as levasse e não se importavam nem um pouco com o que tentava interromper aquele momento de prazer intenso!
Era sua última lição!
O mar estava lhe ensinando como se comportar em seus próximos momentos.
"Apenas sinta o que houver para ser sentido".

Correu e saltou.
Abriu os braços, mas não para tentar voar.
Queria o vácuo envolvesse seu corpo por completo. Não queria sentir nem a si mesmo.
A velocidade com que a terra tentava atrair de volta seu corpo não assustava.
Estava aprendendo tão rápido, que mal tinha forma de processar conscientemente as repostas que estava recebendo mas elas estavam todas lá! Podiam ser sentidas com cada célula de seu corpo!
sentia a obsessão com que a terra amava seus seres. Sentiu a mágoa que exprimia por ser rejeitada.
Compreendeu como estava velha... a velha mais absolutamente linda do univesro inteiro! Mas ainda assim, uma velha. Cansada, matratada, rejeitada, explorada e cheia de manias às vezes cruiés, mas que exprimiam apenas o intenso desespero de saber que estava próxima do fim. A decepção de quem tenta agradar a seus amados com toda a sorte de belos presentes, conforto e carinho, mas que só recebia em troca desprezo.
Soube que o seu desejo de liberdade era muito motivado por essa pressão quase sufocante de um amor que não sabia corresponder.
Soube que não odiava tanto os seres humanos, como achava que odiava. Soube que não os desprezava tanto e naquele momento, teve a certeza de que os compreendia.
Não concordava, não esquecia suas falhas, Não os amava tão deseperadamente quanto a terra, mas definitvamente os compreendia.
Sentiu também que não havia amado antes. Não até aquele momento. Não até perceber quanto amor ainda havia na essência do mundo e na sua própria!
Não pôde amar antes por que não era feliz. Não conhecia a satisfação de simplesmente estar. A realização que é ser.
Mas agora não era a felicidade que motivava o seu amor. Não era nenhum tipo de ambição ou sensação hormonal. Era o seu ser. Havia amor ali. Nem muito, nem pouco. Não havia um sistema de medidas. Simplesmente estava ali, como uma célula, ou um músculo, ou o ar dentro de seus pulmões.
E naquele momento, enquanto uma corrente violenta daquela tempestade fazia seu corpo rodopiar, mudar de direçâo e subir novamente alguns metros, naquele momento em que percebeu que iria juntar-se à festa do mar, naquele momento que viu a espuma subindo ao seu seu encontro, para lhe receber e envolver como uma alegre anfitriã... naquele exato momento, soube que acreditava na beleza.

Havia corrido e pulado.
E agora as ondas envolviam seus pensamentos, entravam em seu corpo, manipulavam seus sentidos e guiavam sua direção. Estavam todos felizes!
E a terra ainda lhe queria! Isso era incrível! E foi a última sensação que teve, antes de se entregar de vez á escuridão.

Havia corrido e pulado.
Acordou sem conseguir acreditar que seus olhos se abriam! de alguma forma, aquilo pareceu totalmente anormal.
A areia envolvia seus membros, como uma amante que havia tido uma noite agradável.
Seus ossos doíam muito, provavelmente alguns estavam até quebrados, mas isso não era de todo desagradável.
Não conseguia lembrar-se de absolutamente nada antes daquela manhã. Não sabia como havia ido parar ali, por que havia se afogado e nem ao menos de quem era antes de abrir seus olhos à pouco minutos atrás. Não sabia, não lembrava, mas de alguma forma compreendia tudo.
E estava inacreditavelmente feliz!
Publicado por HEIDI COSTA às 2:00 PM

Quantos delírios?:



Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Diferente.

Se pudesse, eu nem tinha aberto os olhos quando acordei naquela manhã. Pra falar a verdade, eu bem que tentei por um tempo.

Levantei da cama com os olhos fechados e, automaticamente procurei tatear meus óculos na mesa de cabeceira... rotina idiota!

Ainda sem abrir os olhos, joguei os óculos longe. Ouvi o barulho de algo se chocando contra parede, de vidros se partindo, de algo caindo no chão. Não estou muito certo se essa foi a ordem exata dos acontecimentos, mas quem se importa?

Levantei e topei com o pé esquerdo no pé da cama, depois dei uma joelhada na porta do armário, que havia ficado aberta na noite passada. Uma cabeçada na porta do quarto, que ainda estava fechada e então a claridade: Eu estava na sala.

Normalmente eu teria iso direto lavar o rosto, mas não naquele dia! Ah, não mesmo!
Mais algumas topadas doloridas pelos móveis e eu cheguei na geladeira, escolhi a primeira coisa que veio na minha mão. Pesei que era uma maçã, mas era uma cebola!
Ótimo! Eu nunca havia mesmo mordido uma cebola. Não era tão ruim... não tão amargo quanto o gosto daquelas palavras da noite passada...
Comi a cebola até o final. Acho que estava com casca...

Tateei uma garrafa, imaginando que tomaria um gole de água, mas era o concentrado de guaraná natural. O gosto intensamente doce da bebida me provocou náuseas imediatas. Em qualquer outro dia eu teria cuspido na mesmo hora, mas naquela manhã eu continuei bebendo... até que não restasse mais uma gota na garrafa.

Terminei de me arrumar ainda com os olhos fechados. Fui escolhendo as primeiras peças que vinham à minha mão no guarda roupas. Me vesti da melhor maneira que pude, peguei a carteira e a chave que estavam ao lado da porta e saí para o trabalho.
Nada de elevador!! Dessa vez eu ia descer os seis andares de escada.

Acho que não foi mesmo uma boa idéia descer escadas de olhos fechados... Os dois primeiros lances até que foram bem, mas depois eu fiquei confiante de mais (esse sempre foi o meu erro mesmo).
Um passo em falso e no minuto seguinte eu estava rolando escada abaixo. Abri os olhos instintivamente no início da queda, mas não pude reconhecer o ângulo da minha visão. Fechei os olhos de novo rapidamente e continuei caindo.

Senti um degrau raspar algumas costelas, um outro suportou três pancadas consecutivas de minha perna direita e alguns outros foram se revezando entre meus braços e meu rosto.
Cheguei ao final da queda com um sentimento de alívio. Aqueles segundos pareceram durar para sempre, exatamente como os da noite anterior... mas a dor dessa vez não era tão intensa.
Pra ser sincero, eu tenho que reconhecer que a dor física que senti naquele momento foi uma distração. Os minutos que passei caído ao pé daquela escada, sentindo as pontadas agudas de dor no corpo, foram na verdade os mais agradáveis das últimas 12 horas.

Passei pela portaria e cheguei na rua. Agora eu ia ter que abrir os olhos mesmo, mas aquilo já não importava tanto...
Manquei até a metade do caminho para o meu carro e desisti. Eu não estava com os óculos e minhas pernas ainda doíam incrivelmente. Melhor pegar um táxi.

Cheguei que no escritório e minha secretária, por mais discreta que tentasse parecer,não conseguiu evitar o olhar de surpresa e estranheza que me lançou. Percebi que outros colegas meus me olhavam da mesma forma e procurei num espelho algum motivo para aquilo.

Motivos não faltavam!

Pra começar meu cotovelo e meu queixo estavam sangrando, minha camisa estava abotoada muito incorretamente, e a calça que eu estava usando era de um smoking que eu havia usado num casamento da semana passada!
Não pude deixar de rir com a cena. Acenei para eles de maneira casual e entrei na minha sala.

Ao lado dos documentos que eu tinha para ler e assinar naquela manhã, estava um porta retrato. Um porta retratos que olhava para mim com seus sorriso angelical e dizia: " Você é um pobre coitado! Um fracassado miserável".
"Eu sou sim!" - Respondi em voz alta - "Mas isso é tudo culpa sua!"
Peguei o porta retratos e fui até a minha secretária:
"Guarde isso no meu cofre."
"Ah... no cofre do banco?"
"Sim! Por acaso eu tenho algum outro cofre?"
"Não senhor." Disse ela, pegando o objeto da minha mão.
"Vá agora. E tome cuidado!"
"Sim senhor... anh... senhor?"
"O que?"
"Está tudo bem?"
"Sim. Está." Respondi, indo em direção à porta de saída.
"O senhor vai sair?"
"Vou, mas não desmarque a reunião."
"Mas... já estão todos aguardando pelo senhor na sala..."
"Deixe eles lá!"

Saí do escritório e comecei a caminhar. Minha intenção era de dobrar em todas as esquinas para a esquerda que eu encontrasse no caminho, até que meus ferimentos deixassem de doer.

No meio da tarde meu celular começou a tocar.
Em um dia normal eu teria atendido e falado para a minha secretária cancelar meus compromissos, mas não naquela tarde!

Parei numa barraca de cachorro quente e troquei meu celular com "palm top" por um sanduíche e uma lata de refrigerante. Esse foi outro momento bastante agradável do meu dia.

Só comecei a sentir sono realmente dois dias depois do início da minha caminhada. Eu já não fazia a menor idéia de onde estava! O sol estava forte e eu havia chegado à estrada... não tinha mais esquinas. Não haveria um outro caminho a seguir por um bom tempo.

Ela estava certa!
Por mais que eu lutasse, sempre acabava chegando a essas situações onde eu era impelido a fazer algo previsível, por mais que eu tentasse pegar as esquerdas, acabava sempre voltando para uma linha reta!
Era mais do que deprimente! Aquela imensa via reta que se estendia a perder de vista na minha frente era desesperadora!
Tive vontade de dobrar aquelas linhas de concreto com os meus próprios braços! Tive vontade de gritar, de xingar, de entrar naquele mato que beirava a estrada e adquirir alguma doença bem incomum! Ser picado por algum inseto raro... qualquer coisa!

Deitei debaixo de uma árvore morta que observava a minha confusão e acordei apenas no dia seguinte. Estava ventando muito! Os galhos mortos dançavam acima dos meus olhos... A princípio eu achei que fosse apenas de alegria, mas foi então que eu entendi: ERA UM APELO!
"Vá!" - dizia ela - "Olhe pra mim, fiquei plantada aqui por toda a vida e agora é tarde demais! É tarde demais para mim, mas você ainda pode ir!"

"Venha comigo!" - Dizia o vento! "Venha logo!"
Eu levantei ainda confuso e percebi que meu corpo não doía mais. Decidi que atenderia ao apelo dos mortos naquela manhã. Olhei para a árvore seca e me preparei para dizer-lhe adeus, mas nesse momento, desprendeu-se de um galho mais alto, uma folha, pequena: Estava verde!
"Leve-me com você!" - Pedia ela.
Eu a coloquei no bolso e segui o meu caminho.

A direção da ventania parecia me apressar para um destino que ela já conhecia. Parecia ansiosa que eu chegasse logo.
Fui andando o mais rápido que pude. Segui aquela ventania por dias, semanas, meses. Às vezes ela parava em algum ponto, pra que eu pudesse descansar. Às vezes me dava uns dois ou três dias de folga e então voltava, intensa, guiando-me para seu refúgio desconhecido.
Vários meses já deviam ter se passado (eu já havia esquecido como se mede o tempo). Até que um dia, ao me levar até uma praia, minha guia começou a soprar mais forte. O recado era simples: "atire-se ao mar".
Eu hesitei e a brisa pareceu ofendida.
Começou a soprar mais forte, furiosa.
Eu havia confiado nela até ali, não era justo que desconfiasse agora.
Compreendi que não poderia mesmo desapontá-la daquela forma e comecei na nadar.

Depois de um certo tempo, meus músculos começaram a cansar, mas o vento trouxe da praia uma tampa de isopor para mim.
Fiquei boiando por várias horas, entregue a vontade máxima daquela brisa suave.

Acabei por chegar a um conjunto de corais. Havia um pequeno veleiro, já bastante danificado, preso entre duas rochas paralelas.
Quando eu entrei, percebi que ali havia acontecido um desastre!
Eles haviam enfrentado uma tempestade e pelo jeito estavam presos há dias naquele lugar.

Comecei a vasculhar o interior da embarcação e encontrei uma mulher caída. A princípio pensei que estivesse morta, mas ela estava apenas ferida, desmaiada.
Cuidei dela como pude e naquela noite tivemos uma outra tempestade. A maré subiu mais, libertando o barco das rochas e o vento nos levou até uma praia da ilha que estava a pouca distância dali.
Já faz alguns anos que isso aconteceu, mas só hoje eu voltei a velejar pelos mares de minha antiga cidade.
Aquela folha verde que eu trouxe comigo da árvore morta nunca morreu. Eu a deixo sempre ao lado do leme, para que veja junto comigo aonde estamos indo.

Alguma coisa na forma como o vento soprou nessa tarde fez com que eu lembrasse de toda essa história e das palavras duras que eu ouvi na noite anterior ao dia em que nasci.
Num dia normal essas lembranças teriam me provocado dor, num dia normal aquelas palavras teriam me feito chorar.
Mas não hoje.
Não mais.

Publicado por HEIDI COSTA às 3:35 PM

Quantos delírios?:



Segunda-feira, Novembro 20, 2006

Desacato.

Ele parou em frente à delegacia e respirou fundo: precisava de fôlego, muito fôlego para aguentar o tempo que fosse nescessário.
1,2,3...
- AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!
O grito saiu num volume maior do que ele mesmo imaginava que poderia gritar. Isso era bom. Continuou gritando.
A sensação era excelente. Á princípio as pessoas passavam por ele com cara de assustadas, mas depois de cinco minutos, nunguém mais passava por ali. Atravessavam a rua, com medo e seguiam seus caminhos, ou simplemente paravam do outro lado, observando, tentando compreender o que estava acontecendo.

Finalmente um policial saiu apressado de dentro da delegacia:
- Senhor, está tudo bem?
Ele continuou gritando. Era óbvio que não estava tudo bem! Estava tudo terrivelmente errado e ele continuava gritando sua indignação.
- Senhor, peço que pare de gritar. Se o senhor está com algum problema, nós podemos conversar para tentar resolvê-lo.
Não! Ele não tinha a menor intenção de parar. Fez dois segundos de silêncio para recuperar o fôlego, e então, olhando firmemente nos olhos do policial, voltou a gritar. Ainda mais alto.
- Senhor, mais uma vez peço que pare de gritar.Se não parar de gritar agora mesmo, seu ato será considerado como desacato e eu vou ter que detê-lo.
O policial estava ficando irritando. Dava para perceber pelo seu tom de voz e pelo olhar que lançava por trás dos óculos discretos que usava.
Mas ele continuou gritando.
O outro homem, depois de alguns instantes se irritou ainda mais:
- Agora já chega! O senhor está preso. Vamos ver por quanto tempo continua gritando na cela.

Ele foi algemado e levado às pressas para o interior da delegacia. Olhou uma última vez para o aglomerado de pessoas que haviam se juntado em volta para apreciar a cena.
Algumas olhavam desconfiadas, outras sorriam com deboche, outras balançavam suas cabeças em desaprovação. Mas todas, sem excessão estavam incomodas. Seus gritos as pertubavam e isto estava claro em seus olhos.

Foi levado ao delegado e em poucos segundos todo o prédio já estava tomado por seus gritos. Os outros sons de protesto, de injúrias, de máquinas, haviam sido abafados por completo.
- O que está acontecendo aqui?
Perguntou o homem de trás da mesa.
- Este senhor parou na frente da delegacia e começou a gitar. Não consegui convencê-lo a parar nem mesmo sob a ameaça de prisão.
O policial falava alto, esforçando-se para que sua voz não fosse abafada pelo grito grave do novo prisioneiro.
- Muito bem, senhor. Está com algum problema, ou devo presumir que é só mais um engraçadinho que veio aqui perder meu tempo?
- AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!
- Humpf! O senhor está sendo preso, compreende isso? Por desacato à autoridade.
- AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!
- Preciso do seu nome. O senhor vai ser fichado. Tem direito a fazer uma ligação.
- AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!
-Eu já procurei, senhor. ele não tem carteira. Nenhum documento, nada que nos dê uma pista de seu nome, de onde mora, nada!

O delegado, acostumado a passar o dia no meio da agitação e do barulho daquela que era uma das delegacias mais movimentadas da cidade, pareceu surpreendentemente abalado com esse novo ruído.

-Pois então tire as digitais desse infeliz e jogue no xadrez! Acho que é isso que ele quer!

Quando foi levado para o interior das celas, surpreendeu-se com o odor desagradável do ambiente. Seus gritos, à princípio pareceram divertir os presos, que o receberam com gargalhadas e gritos de ofensas bem humorados.
O policial estava agora intrigado com o sujeito e preferiu colocá-lo numa celas reservada para presos não perigosos.

O homem sentou-se pacientemente num canto da cela, respirou fundo aquele ar fétido e continuou com o seu grito. Percebeu com estranhesa que ainda não se sentia preso, mesmo depois que as celas já haviam se fechado sobre ele a mais de uma hora.

- Senhor...
O carcereiro parou com respeito à porta do delegado.
- O que é?
- Senhor, o homem não pára de gritar! Está irritando os outros presos. Estão todos xingando e batendo nas celas, muito irritados...
- Pois então faça o homem calar a boca, oras!
- Mas, senhor... como eu faço isso?
O policial lançou um olhar significativo para o funcionário:
- Não vai querer agora que eu te ensine o seu trabalho, né?
- Com todo o respeito, senhor. O homen não é criminoso! É um lunãtico! Um louco! Eu não vou bater em louco! Deus me livre!
E fez o sinal da cruz.
O delegado soltou um suspiro exasperado.
- Então deixe o homem gritando lá!
- Senhor... se ele continuar por muito tempo... acho que vai ser espancado.
- Ponha ele numa cela com os "cagões".
- Ele já está lá. Mas os homens estão muito irritados. Estão com dor de cabeça e ameaçam perder a paciência a qualquer momento.
- Mas que inferno! Como se eu já não tivesse problemas suficientes nessa vida! O que você quer que eu faça, homem de Deus?
- Acho que... acho que o senhor deve tirá-lo de lá. Só isso...

O delegado chamou o policial que havia feito a prisão. O carceriro voltou ao seu trabalho.
- Já encontrou a ficha do homem?
- Ainda não, senhor. O senhor sabe como são esses arquivos de digitais. Pode levar dias!
- Me diga, por que diabos você trouxe este louco para dentro da minha delegacia?
O delegado estava irritado e deu grito quase tão alto quanto o do prisioneiro misterioso.
- Ele não parava de gritar, senhor. Bem aqui na frente.
- e você resolve trazê-lo aqui pra dentro! Graaande!! Agora eu não posso entregá-lo pro pinel enquanto não souber o nome do infeliz e você me diz que isso pode levar dias! Tem idéia do quanto isso me aborrece?
- Desculpe, senhor... eu... não sabia o que fazer.
- Pois eu vou te dizer o que fazer: esquece essa porra de arquivo, essa porra de digitais! Pega esse infeliz, esconde ele num camburão e leva pra bem l,onge daqui! Pra qualquer lugar onde ele não consiga voltar!
- Mas...
- Mas o que??????????
- Nada senhor. Vou fazer isso. Pra onde eu o levo?
- Pra casa da sua mãe! Pra puta que o pariu!

O policial saiu da sala assustado e irritado. Era a primeira vez que levava uma bronca daquelas! Agarrou o prisioneiro com fúria nos olhos e o tirou de dentro da cela. Os prisioneiros fizeram uma festa de gritos e depois que os dois saíram, o cárcere ficou em silêncio absoluto. Pela primeira vez em toda a história da delegacia.

- Ora! cale essa boca!
Disse o policial, jogando o homem com violência no camburão.

Mas ele continuava gritando. Sua gargante doía e seu grito já não tinha mais a mesma potência, mas ele fazia sair o mais alto que podia e mesmo algemado naquele camrurão, que começava a se dirigir por lugares escuros para fora da cidade, ele percebeu que não sentia medo!

O policial dirigiu por quase três horas. Sua cabeça latejava de dor e ele por várias vezes sentiu a fúria invadí-lo. Uma vontade enorme de bater o carro contra um muro, de jogar o cambruão de um percipício... qualquer coisa violenta o bastante para destruir tudo!
Finalmente, parou num matagal escuro, próximo a um pequeno lago, já a vários quilometros da cidade. Retirou o homem do camburão o jogou-o no chão enlamaçado. Puxou seu revolver e apontou para a cara do desconhecido:
- Você vai parar de gritar agora, seu merda! Por bem ou por mal!
O homem não parou. o policial sentiu o gatilho coçando em seu dedo. Aquele homem caído, que provavelmente nunca fizera mal a ninguém, que provavelmente era um pobre coitado louco, o fazia sentir mais furioso do que todos os outros criminisos verdadeiros que já havia encontrado em todos os seus anos de profissão.Era estranho e assustador perceber isso!
Mas ele não era um assassino! Não ia matar um homem só por que estava gritando!
Ele agarrou o homem pelo colarinho e disse, olhando em seus olhos, já sentindo sua raiva dar lugar a um outro tipo de sentimento: uma pena quase repeitosa pelo sujeito:
- Escuta aqui! Vá ser maluco em outro lugar, entendeu? Não volte pra lá! Não me cause mais problemas!

Ele virou de costas e afastou-se, em diração ao carro outra vez, deixando o homem caído no chão.
Abriu a porta do camburão e ia entrar, quando ouviu uma voz já quase rouca atrás de si:
- Por que?
A surpresa de ouvir aquele homem que ele já consederava totalmente insano, fazer uma pergunta, num tom de voz racional, quase o fez cair pra trás. Ele segurou na porta e agarrou a arma com medo... de alguma coisa.
- Por que o que? - Perguntou, tentando conter o susto.
- Por que o grito incomoda TANTO?

O policial sentiu um arrepio ao ouvir a intensidade da palavra "tanto". Ele sabia a que "tanto" estava se referindo: aquele homem havia incomodado a todos em volta de si naquele dia. havia feito pessoas de bem assistirem com aprobação um inocente ser preso, havia irritado um delegado que convivia com barulhos muito mais ofensivos a vida inteira, havia feito covardes ladrões de galinha querem espanca-lo, havia silenciado um cárcere cheio de criminosos furiosos e quase havia tornado ele próprio - um policial burocrático - num assassino.
Voltou-se para o homem, tentando imaginar uma resposta para sua pergunta, mas ele já estava dormindo, exausto, com o rosto voltado para o chão.

O policial deu a partida no carro. Não precisava mais responder ao homem, mas a pergunta ainda o incomodava.
A única coisa que o homem havia feito foi usar sua própria garganta livremente, da maneira que queria. Sabe-se lá o porquê. E o por que também não interessava...

Ou interessava?

E de repente ele se lembrou do que havia sentido quando o homem parou de gritar e lhe fez uma pergunta: MEDO.

Era isso que aquele homem tinha causado em todas as pessoas á sua volta naquele dia, com sua aparência respeitável e simples, agindo como um louco!

MEDO!

Era por isso que o motivo importava! As pessoas precisavam saber por que ele estava daquele jeito, por que adimitir que nenhum evento em especial o havia levado aquilo seria também adimitir que qualquer um podia agir da mesma forma. UQe qualquer um podia, em sã consiencia, começar a gritar simplesmente porque tinha vontade.

Essa liberdade exagerada de expressão e sentimentos assustava as pessoas. E essa era a pergunta: "POR QUÊ?"

O policial pensou mais um pouco sobre o assunto, enquanto dirigia a estrada escura de volta pra casa. Abriu a janela, sentindo ele prórpio a vontade de gritar, na solidão escura daquela noite. Ninguém jamais saberia...

E de repente ele percebeu!
O velho policial soltou uma gargalhada gostosa, sentindo uma satisfação que há muitos, muitos anos mesmo, mão esperimentava.

Ele e sua família tiveram um final de semana excelente!

Publicado por HEIDI COSTA às 6:25 PM

Quantos delírios?:



Quinta-feira, Novembro 16, 2006

Era uma vez um sorriso.

Ela queria tanto fugir!
Queria ter correntes que a prendessem, cordas, paredes, cercas, arame farpado...
Qualquer tipo de armadilha física, por mais mortal que fosse...
Qualquer obstáculo vísivel e palpável que ela pudesse enxergar como o inimigo a ser vencido...
Mas o desesperador era exatamente a falta das cadeias... aquela pseudo liberdade que a fazia querer explodir em mil pedaços cada vez que juntava coragem para encarar a realidade: estava presa a sua própria vida.
Não era à rotina de um escritório, à monotonia de um vício, à dor de uma doença... sua prisão era ela mesma!
Sua própria incapacidade, seua própria insuficiencia, sua própria insignificância!
Ela queria fugir de si mesma.
Ser qualquer outra pessoa, nem melhor, nem pior... só não queria continuar a ser quem era.

Ela realmente odiava existir.
Odiava a grandiosidade de seus planos e sua completa incapacidade de alcançá-los.
Odiava não ter a miudeza de pensamento de quem só quer feliz... de qualquer jeito, de qualquer forma.
Odiava a certeza quase absoluta de que, muito provavelmente, nenhum de seus maiores sonhos seria realizado.
Odiava saber que ela jamais se conformaria com isso.
Odiava prever que ela sempre se sentiria uma fracassada!

Naquela noite ela sentiu a pressão de todos os olhos, de todas as pessoas que a amavam (e que ela amava também).
Sentiu o peso de todos olhares esperando seu sorriso, de todas os ouvidos esperando suas palavras alegres...
Ela não podia mais sorrir!
Meu Deus! Ela estava tão cansada de sorrir!!!
Sorrir era tão malditamente fácil!
Era tão estupidamente simples ficar feliz e ignorar todo o resto!

Ignorar a miséria que era sua própria existência!
Era fácil sentir-se feliz por um dia, por uma noite... por uma semana inteira!
Uma atriz tão boa que enaganava até a si mesma!

Mais ela não queria mais sorrir... não aquele sorriso!

E também não queria chorar!
Pra quê jogar sobre pessoas boas todo o peso de seus fracassos?
Ninguém poderia ajudar!
Ninguém podia fazer nada, porque não tinha nada a ser feito!
Nenhuma decisão prática poderia mudar droga nenhuma!

E mais uma vez ela queria fugir!
Fugir ao menos do peso dos olhos... fugir ao menos da angústia das decepções que ela certamente veria!
Nada nunca mais seria o mesmo!

Mas ela ainda estava presa!
Não tinha competência nem pra fugir! Nem por um dia inteiro!

Ela sabia que voltaria!
Que merda! Ela foi dormir sabendo que voltaria!

Só tinha coragem, mais nada!
De que vale a coragem quando você tem um coração?
De que vale a coragem sem o caminho, sem o desafio...
De que vale a coragem quando não se está só?

Provavelmente nem seu desejo de solidão seria satisfeito.
Provavelmente só serviria para magoar quem não tem nada a ver com isso.
Provavelmente tudo voltaria a ser como era antes...

A história ainda não acabou.
Mas duvido muito que algo diferente possa acontecer para que valha a pena continuá-la.
Publicado por HEIDI COSTA às 2:15 AM

Quantos delírios?:



Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Saudades e algo mais.

Já haviam 206 dias que ela tinha partido (ou seriam apenas 2 meses?).
Não importa! Desde que ela se fora o tempo perdera completamente a lógica.
Algumas vezes ele sentia um aperto no peito que parecia durar horas, mas que na vedade não passava apenas de um breve minuto.
Outras vezes ele sonhava com ela, pensando estar apenas tirando um cochilo, e quando via, tinha dormido dias inteiros!

Com ela se fora toda a lógica, toda a simetria, toda a compreensão que ele fazia do mundo. Não sabia mais a diferença entre silêncio e barulho, não percebia as mudanças de temperatura, não distinguia mais as cores...
Seu mundo acontecia agora apenas em seus pensamentos, ou melhor, em suas lembranças.
Todas as pessoas tinham o rosto dela. O silêncio estava cheio da sua voz, o frio era intenso a qualquer hora do dia ou da noite, e as cores... meu deus! Era como se ele enxergasse tudo através de uma lente. Não existia mais vermelho, azul, branco, preto... era tudo verde! Verde como os olhos dela.

Só uma coisa ele não se atrevia a lembrar: o sorriso!
Pensar naqueles lábos macios e rosados se abrindo com um ruído doce, moldando a expressão mais bela que ele já tinha visto na vida... não! Lembrar daquilo provocava uma dor mais vazia que a morte, um desespero mais sufocante que as profundezas de um mar gelado.Essa era uma imagem que ele definitivamente precisaria esquecer.

Olhou para as paredes vazias do quarto... elas funcionavam como uma esoécie de caixa acústica, prendendo para sempre o som daquelas últimas palavras. A mesma voz doce, embragada pelas lágrimas, reverberava de uma parede para a outra, encerrada naquela órbita infinita: "Eu tenho que ir agora. Se cuida!"

Ele estava enlouquecendo! Precisava fugir! Precisava parar de pensar!
Correu na direção da porta e tentou abrir, mas não conseguiu girar a maçaneta: sair daquele quarto significaria mudar de ambiente, seguir em frente. Tudo o que acontecera ali dentro deixaria de ser o presente para se transformar em passado. Ele não podia suportar um presente sem ela!

Deitou no chão, encostado à porta, desorientado. Precisava ficar ali, naquele lugar, naquele momento, até que...
Sentiu o torpor do desespero envolvê-lo e entregou-se a ele, como se à própria morte. Sua mente conturbada foi-se acalmando, como se seu cérebro estivesse mergulhado em morfina. Ali, encolhido contra a porta, sobre o chão gelado do quarto, ele sonhou:

Estava num labirinto e de alguma forma ele sabia que ela também estava ali, em algum lugar, tão perdida quanto ele.
Começou a correr desesperado por entre as altas paredes de concreto. Queria chamá-la, mas não conseguia falar. Sentia-se exausto, confuso, sozinho...
E então ele a ouviu. Estava longe, mas ele não tinha dúvidas: era a voz dela! Chamando o seu nome! A voz se aproximava, mas ele não conseguia resonder. Por mais que tentasse, sua garganta não emitia som algum. Era como se estivesse sufocando! Queria seguir a voz dela, queria gritar para que ela pudesse ouví-lo, mas não conseguia emitir ruído algum, além de um abafado gemido.
Esse tormento continuou ainda por algum tempo, até que a voz dela cessou de ecoar. Ela não o chamava mais!
Uma tristeza profundo o envolveu, seguida por uma onda de pânico: a parede atrás dele começava a se mexer! Ele tentava escorá-la com as costas, mas ela continuava avançando, como se estivesse disposta a impressá-lo contra a outra.
Sentiu que seu corpo era empurrado para a frente à medida que a parede se movia e achou que aquele seria o seu fim. Olhava em volta, mas não via nada em que pudesse se apoiar, nada para segurar, nenhum refúgio possível. Ele agora suava frio...

Então a parede alcançou um ângulo agudo e parou de se mover. Ele respirou aliviado, mas o milagre maior aconteceu logo depois: ele voltou a ouvir a voz dela! Ali, bem do seu lado, chamando seu nome novamente!
Ele olhava em volta, mas apesar de a voz estar agora muito próxima, ele ainda não conseguia vê-la. Tinha certeza de que ela estava ali, podia até sentir seu perfume!
"Vamos querido, acorde!"

E então ele abriu os olhos. Estava de volta ao quarto, deitado na mesma posição em que fora dormir. A porta agora havia sido aberta e... não era possível! Ela estava ali, bem na sua frente!
Ele levantou-se depressa e a abraçou, como se ainda não acreditasse no que via:
"Graças a Deus você voltou! Eu senti tanto a sua falta!"
"É claro que voltei! Você tinha alguma dúvida?"
Ele sentiu-se um pouco envergonhado:
"É que demorou tanto! Passou tanto tempo... eu não queria que você tivesse ido!"
"Mas eu tinha que ir! O acidente foi sério! Graças a Deus está tudo bem agora!"
"Eu... nunca havia me sentido tã só, em toda a minha vida!"
"Que exagero! Foi só um final de semana!"

Ele se calou, surpreso com essa declaração.
Ela olhou em seus olhos, com aquele jeito divertido e então... o sorriso!
Só que dessa vez não doeu...
Publicado por HEIDI COSTA às 6:43 PM

Quantos delírios?:



Segunda-feira, Novembro 14, 2005

Meu Suspiro Particular


"SE EU SOFRER AMNÉSIA, NÃO TENTE ME AJUDAR! NÃO GOSTEI, NÃO FOI BOM, E EU NÃO QUERO SABER DA MINHA VIDA! GRATA."

Este era o conteúdo do único papel que aquela maluca trazia na carteira, (além, é claro, do pouquíssimo dinheiro, provavelmente para a passagem - R$1.40). Estava cuidadosamente plastificado, como um documento.
É claro que não me importava o estado daquele maldito bilhete (ou seja lá o que fosse), porque eu estava desesperado! Com certeza o meu vôo já era! E tudo por causa de uma ultrapassagem no sinal vermelho...
Pode dizer, vai: "Bem feito! Quem manda desrespeitar as leis do trânsito?" Mas eu já estava saindo do país! E depois, atire a primeira pedra quem nunca ignorou um semáforozinho numa rua pouco movimentada...
Fala sério, ninguém imagina que um acidente vai acontecer justamente com você, justamente nesse dia, por uma bobagem dessa...
Mas aconteceu.
Ela acordou no hospital, toda dolorida: tinha batido a cabeça no asfalto com a queda (tá bom, eu estava indo muito rápido. Reconheço).
Ficara inconsciente por exatamente três horas e quarenta e oito minutos. Durante esse tempo eu não desgrudei os olhos do leito um minuto sequer e quando ela acordou, eu quase gritei de tanto alívio.
Foi aí que veio o choque: ela não lembrava de nada! Nem seu nome, nem de seus pais, nem do que estava fazendo na rua em que a atropelei.
Entreguei a ela o tal bilhete e para minha total surpresa, ela não se desesperou, muito pelo contrário: abriu um sorriso e disse com a voz mais calma do mundo:
- Que coisa engraçada.... legal!
Aí eu não agüentei. Meus nervos já estavam em frangalhos por causa do susto, da perda domeu compromisso, do sentimento de culpa...
Quando ela olhou para mim, com a cara mais inocente do mundo e disse que aquilo tudo era "legal", eu quase tive um troço!
- Engraçado? Legal? Isso pode ser grave, pode ser pra sempre! Vamos, faça um esforço. Eu imploro! Tente se lembrar de alguém a quem eu possa chamar e avisar o que aconteceu, e onde você está.Deve ter alguém muito preocupado com você nesse exato momento.
- De jeito nenhum! Se eu não queria me lembrar, deve ser perigoso, ou no mínimo, muito chato! Sera que você não vê? Essa é uma oportunidade única de ser totalmente livre! De vivver sem nenhum tipo de trauma, de medo, sem nenhuma decepção do passado... Eu não quero lembrar de quem eu era. Quero ser quem eu sou agora. Aliás, se você me conhece de algum lugar, faça o favor de sumir daqui! Me deixa curtir esse momento especial.
- Sumir daqui? Eu não te conheço. Fui eu que te atropelei, eu não posso ir embora! Você é minha responsabilidade! Entende agora? Se alguma coisa te acontecer, eu posso até ser preso!
- Olha, não se preocupe, eu vou ficar bem. Pode ir...
- Tá louca? Você quer mesmo esquecer toda a sua vida, perder tudo o que já viveu até aqui?
- Você é muito dramático! - Disse ela, olhando em um pequeno espelho que estava ao lado de sua cama - Eu pareço muito jovem, posso viver um monte de coisas ainda! Pode ir!

Mas eu não conseguia ir embora.
Vocês acreditam em amor a primeira vista?
Na verdade nem eu. O que senti por aquela mulher louca foi uma paixão fulminante! Por sua causa eu estava a mais de três horas num quarto de hospital e perdera um vôo que me custou vários dólares, além de um ótimo emprego no exetrior. Tive vontade de gritar com ela, de apertar-lhe o pescoço, de falar alguns desaforos... mas principalmente, tive vontade de tomá-la em meus braços e beijar sua boca, até que ambos caíssemos, sem fôlego.

É claro que não demonstrei esses desejos.
Dois dias depois ela recebeu alta (isso por que me fez jurar que eu não contaria ao médico sobre a sua falta de memória). Levei um amigo que se passou por amigo dela e confirmou que seus pais estavam viajando. Ele levou até os documentos, para que os médicos pudessem registrar a "paciente Karen Araújo" nos arquivos (eu sei, eu sei que isso é crime!).
Depois das formalidades legais, eu a coloquei no carro. Embora não fizesse a mínima idéia de para onde iria levá-la.

- Estou apaixonada.
Soltou essa frase com um suspiro, com o mesmo tom de voz que usaria para dizer "estou com sono". Essa afirmação cortou o silêncio de forma tão brusca, que por pouco não acontece outro acidente de trânsito.
- O quê? Por quem? Por mim? - Perguntei, esperançoso.
- É claro que não, eu nem te conheço!
- No momento você não conhece ninguém, lembra?
- Mas eu não preciso conhecer para me apaixonar. Eu sinto que estou apaixonada. Essa pessoa existe, e vai me encontrar e me arrebatar! É inevitável que eu me apaixone por ela.
- Se você não precisa conhecer para se apaixonar, pode estar apaixonada por mim.
- Pode ser... - Ela olhou para mim, me analizou e depois concluiu com uma careta muito pouco lisonjeira:
- Mas acho difícil.
- Por quê?
- Porque se eu estivesse apaixonada por você, eu saberia.
Aquela conversa estava me deixando doente! Ou ela era louca, ou estava querendo me enlouquecer. Engoli seco, não queria demonstrar o que eu estava sentindo para não assustá-la.
Estávamos passando pelo Alto da Boa Vista, próximo ao lugar onde havia acontecido o acidente. Ela não lembrava de nada, olhava encantada para aquele caminho, como se nunca o tivesse visto antes. Eu fiquei com um pouco de inveja. Era como se ela fosse turista na cidade em que morava a tanto tempo! E ser turista no Rio de Janeiro não é pouca coisa: Poder olhar para todas essas belezas naturais como se fosse a primeira vez! Não sentir o mesmo tédio ao passar na Presidente Vargas, a mesma monotonia que o hábito imprimiu em cada esquina dessa Cidade Maravilhosa...

Ainda me lembro de cada detalhe daquele dia. Fazia duas semanas que ela estava em minha casa. Eu não agüentava mais aquele rosto, aqueles olhos, aquele sorriso... a cada dia o meu desejo aumentava.
Se a paixão fosse uma planta, a indiferença do outro com certeza, seria o fertilizante. Ela continuava apaixonada pelo tal alguém misterioso, olhava pra mim como se eu fosse seu melhor amigo, e estava completamente feliz.
Estávamos em casa quando o temporal começou. Imediatamente ela foi para o quintal e começou a dançar, brincando na chuva como se tivesse cinco anos de idade.
- Vem! Tá uma delícia!
Ela estava me provocando! Não dava pra aguentar!
Eu caminhei até ela e a abracei. Ela ficou suspresa, mas não reclamou. Nem sei quanto tempo ficamos nos beijando debaixo daquela chuva.

Sabe, a paixão fica um tempo no seu coração, mas o estrago acontece quando ela sobe para a sua mente. Essa é a diferença entre paixão e amor.
O amor fica no coração, mas o seu raciocínio está livre para dizer: "cuidado com essa atitude", "não se esqueça daquele defeito". Mas quando a paixão entra, ela toma conta de tudo, ela fica no seu pensamento e no seu corpo, te controlando. Não dá mais pra ver os perigos, as desvantagens...tudo o que você faz é desejar.
Os dias que se seguiram foram os mais loucos de toda a minha vida. "Ela" não permitia que eu lhe chamasse por nenhum nome. Dizia que ainda não tinha escolhido algum que lhe agradasse.
"Ela" tinha uma intensidade que me esgotava, e ao mesmo tempo me deixava cada vez mais envolvido. Tinha uma ânsia de viver tudo, de ir à todos os lugares, assistir todos os filmes, dançar todas as músicas, amar todas as noites!
Eu chegava ao fim da noite exausto, mas sentindo uma alegria tão eufórica, tão deseprada, que me fazia acreditar que aquilo tudo valia a pena.
E foi então, que, como uma tsunami que se chega sem avisos à uma praia paradisíaca, aquele dia terrível chegou e arrastou tudo:
Ela abriu as cortinas para me acordar. Eu não sabia quem brilhava mais: ela, ou o raio de sol que invadiu meu quarto.
- Acorda, eu preciso falar com você. Estou indo embora!
- Embora? Pra onde? Você recuperou a memória?
- Não, fala sério! Mas eu preciso encontrá-lo!
- Quem?
- Sei lá! Mas não é você. Descobri isso essa noite!
- Do que você está falando? É claro que esse alguém sou eu! Nós somos perfeitos juntos!
- Eu também gosto muito de você... essas semanas foram um delícia, mas... não é você, me desculpe. A culpa não é minha. É do destino, que me fez para outra pessoa.
- Você está louca! Não sabe o que está dizendo...Você não pode ir!
- Eu preciso. Esta é a minha chance de ser feliz.
- Não sabe o que está dizendo, está doente! Não sairá dessa casa!

Ao dizer isso, fui até a porta do apartamento e tranquei. Estava completamente transtornado! Não me importava se ela era feliz, queria que ficasse comigo. Eu precisava dela.
Isso a deixou revoltada! Gritou esbravejou, disse que estava decepcionada comigo, que iria embora de qualquer forma.
Aí começou a quebrar tudo. Queria me forçar a abrir a porta, quebrou vasos de planta, a TV, o som, o vídeo, estava tudo esparramado pelo chão, mas eu não me importava, contanto que ela ficasse comigo.
Resolvi sair e dar uma volta, achei que ela acabaria se acalmando. Comprei flores, chocolate, um urso gigante de pelúcia... estava resolvido a conquistá-la. (Tá legal, eu estava maluco).
Quando eu voltei, a porta estava quebrada. Ela se fora, para sempre.

Primeiro veio a raiva. Gritei e xinguei até que não tivesse mais forças.
Depois, o desespero. Eu adimito, chorei muito. Fiquei deitado naquele chão, cheio de cacos, de lixo, de sonhos.
A paixão estava me torturando. É terrivelmente solitário estar apaixonado!

Fiquei uma semana "desligado". Comi pouquíssimo, não fui ao trabalho, minha vida estava parada.
Não há nada que corrompa (ou traga á tona) com mais facilidade o caráter de uma pessoa do que a paixão.
Em menos de um mês eu havia sido cúmplice de falsidade ideológica, menti, mantive um cárcere privado e quase a agredi. Que louco!

Algumas pessoas pensam que a paixão acaba, não é verdade, ela simplesmente muda-se mais uma vez de lugar e vai para a memória. De lá não sai nunca mais.

Já fazem sete anos que tudo isso aconteceu. Eu me casei, amo muito minha esposa, com certeza não a trocaria por ninguém neste mundo, mas toda vez que penso nessa história, consigo lembrar de cada sensação, de cada calafrio.
Provavelmente ela encontrou a sua paixão (é inevitável passar por essa vida sem encontrá-la), mas não acho que estivesse apaixonada quando foi embora. Era uma sonhadora, pessoas assim já nascem sentindo e esperando por isso, está na alma, nem amnésia pode apagar.

A paixão não cria relacionamentos imortais, cria pessoas eternamente jovens e atraentes, não quer unir vidas sob um teto, mas em torno de uma data, de um local, de uma memória, de um suspiro totalmente particular.



Publicado por HEIDI COSTA às 2:36 AM

Quantos delírios?:



Quarta-feira, Outubro 12, 2005

Fim de Primavera

Tudo começou por culpa dele próprio. Quem mandou ficar me provocando daquela maneira? Ele achava mesmo que eu não teria coragem? Quis pagar pra ver e teve uma baita decepção.
Eu corri pra não ver que ele vinha atrás, sem entender nada, disposto a me convencer a ficar. Fugi. Fugi de dois anos de alegria, porque era desesperador ver no que tinham se tornado. Fugi do dinheiro que eu havia perseguido, fugi da esperança, fugi do sonho.
E acordei num lugar totalmente novo, resolvida a nunca mais pensar no passado, nem para lembrar as coisas boas, nem para lamentar as coisas ruins. Tudo o que eu tinha era o presente e naquele exato momento minha única nescessidade era escovar os dentes.
Voltar para a minha casa estava fora de cogitação. Eu nunca mais pisaria naquele lugar de novo. Um chiclete de menta ia ter que resolver o meu problema por enquanto.
E foi ao comprar o chiclete que eu tive a certeza do que eu queria fazer: na padaria tinha um cartaz, comercial de cigarro, que mostrava a foto de uma montanha cheia de neve.
Eu sempre quis ver a neve e só há uma região aqui no Brasil que neva: O Sul. E era para lá que eu iria.
Ainda estávamos na primavera. Eu tinha tempo suficiente para chegar e me estabelecer até o inverno.
Seria perfeitamente possível. Eu podia pedir carona, roubar um carro, me esconder num caminhão, e por fim, se não quisesse fazer nada disso, ainda podia andar. O importante era que, depois de muito tempo, eu finalmente tinha vontade de fazer alguma coisa na minha vida.
Comecei pedindo carona num ônibus que estava indo para a Avenida Brasil (esse era o meio mais prático de sair do estado, até onde eu sabia). Não foi muito difícil. Disse ao motorista que havia sido assaltada (minha bolsa tinha ficado dentro do carro) e ele me deixou subir sem problemas.
A viagem era um pouco longa. Enquanto estive sentada no ônibus, fiquei lembrando de uma história que eu havia lido em um livro do Érico Veríssimo:
- "Conhece a história do perú? A gente risca com giz um círculo em volta dele e o cretino acredita que está preso. Não seja como o perú. Atravesse o círculo."
No momento aquilo tudo fazia muito sentido para mim. Eu não estava presa. Podia ir embora a hora que quisesse, pra onde quisesse e era isso que eu estava fazendo agora.
Desci do ônibus no último ponto que ele faria na Avendia. Estava num lugar feio, estranho, não quis saber o nome... esperei um ônibus que me levasse ainda mais longe. Não demorou muito.
Encontrar uma carona na Dutra Paulo já não foi tão fácil. Alguns carros paravam, mas eu não sentia confiaça para ir com eles, outros nem diminuíam a velocidade (esses eram a maioria).
Já estava no fim da tarde quando um rapaz parou um Uno azul no acostamento. Ele era magro usava uma camisa de flanela e parecia até um pouco doente. Mas alguma coisa nos olhos dele me dizia que ele era confiável. Aceitei a carona.
Ele estava calado. Ouvia uma música bastante interessante, um pouco depressiva. Preferi não falar nada também. Foi só no meio da noite que começamos a conversar. Ele perguntou se eu queria parar pra comer alguma coisa, eu disse que tudo bem. Nenhum dos dois tinha muito dinheiro (eu na verdade só tinha algumas moedas) então compramos umas frutas na beira da estrada e paramos no acostamento para comer.
Ele me agradeceu por não ter feito nenhuma pergunta no caminho (não estava muito disposto a coneversar naquele momento) e disse que me retribuiria fazendo o mesmo: sem perguntas! Queria apenas saber onde eu queria que ele me deixasse. Eu disse que o mais próximo possível da estrada que vai para o Paraná. Depois disso voltamos pro carro e conversamos assuntos leves. Livros, música, estrelas e filmes...
Na manhã seguinte passamos por lugares belíssimos. Kilômetros de montes e planícies de grama verdíssima e cobertos pelas flores de Primavera. Em uma certa altura havia um lago, um pouco afastado da estrada. Parecia um oásis no meio de um deserto de asfalto. Concordamos em parar o carro no acostamento e nos aproximar do lago.
A grama ainda estava úmida pelo orvalho da noite anterior e o sol já começava a esquentar. Ele sentou à beira do lago e começou a tocar seu violão. Eu não pensei duas vezes e mergulhei. De roupa e tudo! Foi um dos momentos mais agradáveis que já vivi.
Ficamos deitados na grama até o meio dia, desfrutando de uma paz profunda e totalmente desconhecida. O sol já estava quente e minhas roupas já estavam secas quando voltamos ao carro.
Chegamos à São Paulo no final da tarde. Ele disse que ainda não estava pronto para voltar à realidade e se ofereceu para me levar até o Paraná. Eu aceitei, muito agradecida. Entramos num shopping, ele sacou dinheiro e jantamos.
O dia havia sido ótimo e nós estávamos realmente felizes. Meu novo amigo resolveu que preicisávamos de mais algumas coisas para uma viagem tão longa. Comprou pra mim um vestido, um casaco e uma escova dentes (que foi o melhor presente que eu poderia ter recebido no momento!). Comprou algumas coisas para ele também. Disse que não queria mais juntar dinheiro. Que odiava o dinheiro e queria trasformá-lo em alguma coisa útil.
Compramos comida (muita!), cd's, alguns livros e depois fomos dormir num hotel bem legal.
No dia seguinte, quando acordei ele já estava pronto para partir. Havia acordado cedo e comprado um quantidade imensa de gasolina (os garrafões estavam enchendo o porta malas).
A carona até o Paraná se estendeu até o Rio Grande do Sul. Ficamos uma semana na estrada e quando chegamos já nos considerávamos verdadeiros amigos. Ele me revelou que nunca mais iria voltar pra casa. Que relsovera continuar viajando até acabar o dinheiro para gasolina e depois... quem sabe o que poderia acontecer? Perguntou se eu queria ir com ele até a Argentina, mas eu respondi que não. Queria mesmo ficar no Rio Grande do Sul até o inverno.
Nos despedimos na estrada. Passávamos por um vinhedo e as árvores estavam lindas. Decidi que era ali onde eu tinha que ficar. Eu não sabia o que dizer, foi uma sorte muito grande tê-lo encontrado e eu não conseguiria colocar em palavras. Ficamos em silêncio, olhando um para o outro por algum tempo. Parece que nossos olhos encontraram uma forma de se comunicar, pois eu pude ler nos dele o que ele nunca conseguiria dizer e sei que ele também compreendeu os meus. Depois de um longo tempo em silêncio eu saí do carro com a impressão de que nunca tinha sido tão compreendida em toda a minha vida. O Uno desapareceu pra sempre numa curva florida.
Eu estava mais longe do que jamais estivera em toda a minha vida. Parecia que ali, naquele lugar mágico onde as árvores eram floridas e o ar cheirava a uvas, nada do meu passado poderia me machucar. Todos aqueles sentimentos estavam para trás e eu podia pensar claramente, sem medo de que eles atrapalhassem o meu raciocínio.
Fui caminhando pelo vinhedo e decidi que era hora de lembrar. De repassar os fatos e minhas impressões pessoais sobre eles. Pôr um ponto final onde havia ficado reticências.
Eu sempre parti do princípio que tudo que uma pessoa de confiança me disser é verdade (é mais fácil do que viver desconfiando das pessoas que eu amo) então, desde que ele ganhou a minha confiança (especialmente depois que passamos a morar juntos) já sabia que devia pensar antes de qualquer coisa que me dissesse.
Pois bem. O motivo da briga nem era tão forte assim (já haviam tido piores): um simples telefonema! Custava ele ter me esperado terminar?
Mas não! As coisas tinham que ser feitas sempre na hora que ele queria! Desde que ele tinha conseguido aquela maldita promoção, sentia-se o chefe do mundo! Nem de longe lembrava o romântico professor de literatura de cinco anos atrás.
A briga (praticamente um monólogo) começou e com ela várias coisas bastante injustas começaram a ser jogadas na minha cara: "Eu sempre me esforço para fazer tudo o que você quer" (mentira), "sou sempre eu que peço desculpas" (mentira), "você nunca reconhece que está errada" (mentira). Menira, mentira, mentira!!!
A discussão já estava ficando irracional. Eu peguei a chave para sair e dar uma volta. Foi quando eu estava na porta que tudo começou: "Vai! Você sempre volta mesmo!" Isso tinha sido dito de uma forma muito pouco romântica. A intenção era me atingir e conseguiu.
- Olha que um dia eu posso não voltar...
- Só se eu tivesse muita sorte!
- ...
Dei a ele cinco segundos para pensar no que havia dito e se retratar (o raciocínio dele consegue ser bem rápido para ofender, então podia usar a mesma agilidade para se desculpar), mas ao invés de aproveitar a oportunidade, ele tratou de se jogar na própria cova:
- O que foi? Tá aí para por quê? Desistiu?
Bati a porta na cara do cretino e saí, com um sentimento de liberdade que há muito tempo eu não experimentava.
O som da porta batendo ecoou novamente na minha memória: um ruído surdo e precipitado ocupando o espaço de um diálogo sério que nunca havia existido. Lembrei do silêncio magoado que sempre se colocava entre nós dois quando ele me peguntava o que estava errado. Das palavras que eu nunca disse, mas que me consumiram furiosamente quando ele me perguntou porque estávamos brigando tanto ultimamente. E de todas as vezes que eu ironizei ao ouví-lo dizer que queria me fazer feliz.
Percebi que nunca havia realmente tentado fazê-lo enxergar o quanto havia mudado. Eu o culpava em silêncio, tentando não me envolver em discuções. Esperava que ele percebesse por si mesmo que eu estava infeliz... e a porta se fechou.
E de repente, no meio de todas aquelas árvores eu descobri estava sozinha de novo. Que quando as flores da primavera morressem e não pudessem mais colorir o meu caminho o verão seria vazio e o inverno seria frio demais.
As palavras que ouvi voltavam a fazer sentido em minha lembraça: "Vou viajar até acabar o dinheiro da gasolina". "Não seja como o perú".
Mas talvez o perú não fosse mesmo tão cretino. Tão ele seja apenas sábio o suficiente para saber que tudo o que ele precisa está realmente ali, dentro do círculo de giz. E talvez... durante a noite, quando ninguém está vendo, ele saia tranquilamente para dar o seu passeio.
Sim, esse mundo imenso e infinito é interessante apenas para um passeio descompromissado, mas quando o verão acabar eu vou querer estar dentro do meu círculo e voltar para quem é realmente importante pra mim.
Caminhei o resto do dia pelos vinhedos. O cheiro doce do ar perfumava as lembranças da viagem, que me acompanhavam com uma sensação de sonho acordado, de fim de primavera.

FIM
Publicado por HEIDI COSTA às 9:12 AM

Quantos delírios?:



Segunda-feira, Outubro 03, 2005

Fim de Verão

Eu já estava a pelo menos uns dois meses andando sem rumo. Nem sei quantos bairros do Rio de Janeiro eu havia percorrido àquela altura. Dormindo na rua, debaixo de marquises, comendo salgados e refrescos que algumas pessoas me pagavam (eu não queria gastar aquele dinheiro) e com a ligeira sensação de que alguma coisa estava muito errada naquilo tudo.
Essa impressão começou no terceiro dia daquela loucura. Tudo o que eu conseguia lembrar era que eu acordara dois dias atrás, com o sol queimando meu rosto e a areia da praia de Copacabana provocando coceiras por todo o meu corpo. Mais nada! O que eu estava fazendo ali? De onde viera? Qual era o meu nome? Vazio... minha memória estava totalmente em branco. Levantei, e comecei a andar lentamente pelas ruas, sem conseguir formar nenhum raciocínio completo. Dois dias depois eu já começava a pensar melhor. Os questionamentos começavam a surgir. E foi então que, passando pela frente de uma porta espelhada eu me vi pela primeira vez.
Aquilo era impossível! Como eu poderia ser um mendigo, se estava vestido com aquelas roupas? Aquele sapato era muito confortável e parecia caro! Coloquei a mão no bolso. Definitivamente, eu não era um mendigo!
Mas então, como? Como eu perdera a memória? Como aquele dinheiro todo fora parar no bolso da minha calça? Como eu havia dormido na areia da praia, como um vagabundo qualquer? Como, e por quê?
Sentei atônito, num banco de uma praça qualquer. Eu tentava pensar, mas cada vez que eu fazia um pouco mais de esforço nesse sentido minha cabeça começava a doer insuportavelmente. Fiquei olhando o movimento dos automóveis na via. Era meio dia e o calor estava insuportável, o que fazia minha dor de cabeça aumentar ainda mais. Mas então um ônibus parou no ponto à minha frente. Estava pintado de uma cor azul tão refrescante, tão relaxante que minha dor de cabeça passou enquanto eu o observava. Ele começou a se mover e eu resolvi seguí-lo. É claro que ele corria bem mais rápido do que eu, mas acompanhava o seu percurso até perdê-lo de vista (normalmente em uma esquina) e quando chegava até o ponto em que o tinha visto, ficava parado até passar outro ônibus da mesma linha, para eu continuar seguindo.
Demorei um dia inteiro para chegar ao ponto final dele. O momento mais perigoso dessa caminhada foi quando tive passar por dentro de um túnel que não tinha acesso para pedestres, mas eu não podia desistir. Naquele momento, seguir aquele ônibus era a única causa de eu estar vivo. Fiquei sentado perto do ponto final, esperando algum dos ônibus seguir para a garagem. Quando vi que um deles estava saindo, implorei ao motorista que me desse uma carona. Acho que a minha aparência (já estava sem fazer a barba a uns três dias, e sem tomar banho, idem) comoveram o condutor, que me deixou subir com a condição de que eu saltasse um ponto antes de ele chegar. Saltei no ponto combinado e fui seguindo o ônibus a pé.
Chegar na frente daquela garagem de ônibus foi uma das sensações mais maravilhosas que eu me lembrava de ter experimentado nessa vida! O muro estava todo pintado com as cores dos ônibus e eu senti uma paz tão consistente, um alívio tão profundo que meus olhos se encheram de lágrimas. Encostei na marquise de uma casa abandonada que ficava do outro lado da rua e fiquei contemplando aquele muro até cair no sono. Permaneci naquele mesmo lugar por quinze dias.
Durante esse tempo alguns funcionários da garagem já me conheciam. Eu contei que não sabia nada sobre o meu passado e que gostava de ficar ali, olhando para o muro. Um deles caiu na gargalhada quando eu contei como havia ido parar ali, mas logo os outros o repreenderam, dizendo que aquilo não tinha graça nenhuma. Eles estavam morrendo de pena de mim, mas eu não conseguia entender o motivo disso, já que me sentia totalmente feliz, olhando para aquelas cores celestiais. O meu mundo estava completo e quando eu dizia isso para eles, eles pareciam sentir ainda mais pena! Traziam pão e café de manhã e à noite. Na hora do almoço, traziam uma quentinha e um copo de refresco pra mim. Conseguiram até um lugar para eu tomar banho, todos os dias.
Infelizmente, depois dos quinze dias as minhas dores de cabeça voltaram. O verão tinha terminado e os dias estavam úmidos e chuvosos. O azul daquele muro agora me dava uma sensação de afogamento e de perdição. Levantei e fui embora, sem me despedir dos meus amigos(eles com certeza estaria usando camisa azul e seria insuportável chegar perto deles). Pensei em deixar meu nome escrito na parede onde eu estivera hospedado, para eles lembrarem de mim, mas como eu não tinha nome, fiz apenas um buraco e fui embora.
Não demorou muito para que eu encontrasse outro motivo para viver.
Eu estava caminhando a duas horas quando começou um temporal. Corri para baixo de uma árvore para tentar me abrigar. Alguma coisa me fez olhar para cima e eu vi que o galho mais forte apontava para uma rua estreita.
Resolvi seguir nessa direção e lá estava outra árvore, seu galho principal apontando para outra direção. A essa altura eu já estava ensopado, mas nada mais me importava, a não ser seguir os galhos das árvores. Eles pareciam tão seguros e fortes em suas resoluções que me transmitiam uma confiança irresistível! Fui seguindo alegremente, dançando debaixo dos pingos que caíam sobre mim. Depois de três dias chegei ao Horto. Eu estava em êxtase! Todas aquelas árvores firmes e seguras me mostrando o caminho! Eu queria estar no meio delas, cercado por toda aquela sabedoria e estabilidade que me encantavam!
Entrei na mata e fiquei andando em círculos por quarto dias. As árvores me aconselhavam! Cada uma era especialista em uma área e por isso me encaminhavam de umas para as outras, para que meu tratamento fosse completo. Eu comi algumas frutas e insetos e bebi água da chuva. Até que fui encaminhado para a mais sábia das árvores. Todos os seus galhos apontavam para a mesma direção: o leste. Senti que havia alcançando o auge de todos os meus anseios e necessidades. Me aproximei o máximo que pude do tronco e finquei meus pés na lama, como se fossem raízes.
A comunhão com essa árvore majestosa durou apenas uma noite. As primeiras horas do dia seguinte foram chuvosas e o vento acabou derrubando o galho mais alto e mais forte da Grande Árvore e por pouco não me acertou!
Senti que meu mundo vinha abaixo, junto com aquele galho. O barulho da queda despertou alguma coisa dentro de mim. Um sentimento de tristeza e de solidão que vem me acompanhando até hoje. Pela primeira vez eu senti que faltava alguma coisa. Alguma coisa que não estava naquela floresta, nem nos desenhos dos ônibus e nem em nada do que eu tinha visto durante aquela minha jornada. Alguma coisa que era o real motivo da minha existência, e que eu tinha desesperadamente que encontrar.
Pela primeira vez tive consciência de que eu estava sujo - e aquilo me incomodou. Havia uma cachoeira no meio da mata. Tomei um banho, lavei minhas roupas. O dinheiro ainda estava lá, embrulhadinho num saco plástico. Olhar para ele me dava um mau pressentimento. Parecia que ele despertava a memória emocional do estado em que eu me encontrava quando o adquiri. Tive vontade de jogá-lo no riacho que corria até sumir de vista. Tive vontade de rasgá-lo e, não sei porquê, tive vontade de xingá-lo. Mas algum instinto desconhecido me fez guardá-lo.
O sol do inverno estava fraco. Eu fiquei algumas horas nu, esperando que minha roupa secasse. Pendurei-as em um galho de árvore e também tive vontade de abandoná-las. Por alguns momentos cheguei mesmo a odiar aqueles pedaços de roupa bem cortada, que pareciam uma cela móvel. Naqueles momentos em que fiquei nu, no meio da floresta, experimentei uma sensação de liberdade tão sublime, que não pude deixar de sentir um certo pânico ao pensar em me vestir outra vez. Meu corpo parecia reconhecer nessa sensação de nudez um prazer impagável. Mas o vento frio de inverno me fez querer voltar a "prisão" outra vez. E de repente me vi pensando em como a vida era esquisita: nos impelia a todo momento de abrir mão do prazer e da liberdade em troca de um conforto e de uma segurança discutíveis. Eu, na verdade, não me lembrava de nenhuma outra situação que me fizesse sentir assim, mas de alguma forma eu sabia que já havia passado por muitas.
A roupa secou, eu me vesti, e dentro daquela armadura, senti que estava preparado para voltar ao mundo. Na verdade, percebi que estava realmente ansioso por isso.
Saí correndo da floresta e continuei correndo pelas ruas até perder o fôlego. Eu tinha pressa de encontrar! Aquela agonia dolorida no meu peito, me lembrando a cada segundo que eu estava vivendo à toa, aquela sensação de afogamento, de vazio, de solidão... aquilo era urgente!
Mas onde? O quê?
Os dias seguintes foram de uma tristeza sombria e de um desespero inacabável. Havia uma interrogação, um absurdo, um revolta em tudo o que e eu tentava fazer. Por quê? Pra quê? Eram as perguntas que não queriam calar. "Pra quê estou andando assim? Pra quê estou respirando? Por quê? Deve existir algum motivo." Mas quando eu procurava uma distração, uma resposta, um alívio só encontrava a certeza interna de que não era nada daquilo o que eu queria.
As árvores agora pareciam debochar das minhas dúvidas, das minhas necessidades, da minha dor. Elas não podiam me compreender. Eram auto-suficientes, com suas raízes profundas, seus galhos altos, sua força e estabilidade. Não sentiam fome, frio, e não sentiam o vazio que estava me devorando por dentro.
Foi quando percebi que não poderia mais viver assim. A liberdade havia acabado. A alegria que eu sentia em encontrar prazer nas coisas simples havia sumido. Estava faltando alguma coisa! Resolvi voltar ao lugar onde tudo aquilo havia começado: a praia. Se ela não me desse a solução, as profundezas do mar poderiam ao menos calar a minha dor, para sempre.
Eu agora tinha pressa em chegar. O caminho parecia muito mais longo do que da primeira vez que o percorri. Demoraram alguns dias para que eu encontrasse a praia novamente.
Estava noite. O brilho pálido da lua parecia intensificar o frio que cortava os meus ossos, a minha carne, o meu coração. Sentei na areia e me entreguei aos pensamentos, como um mártir que se entrega a dolorosos sacrifícios, sabendo que essa é a última saída, a única solução.
Algumas coisas foram ficando claras: eu já conhecia anteriormente o que estava procurando. Eu só precisava lembrar... eu também sabia, de alguma forma, que lembrar do meu passado não seria agradável, muitas coisas ruins haviam acontecido (sensação de afogamento, abandono, prisão). Se eu escolhesse esquecer tudo pra sempre poderia tentar me acostumar àquela agonia (que certamente não acabaria) e continuar a viver livre e despreocupado (talvez voltar para a floresta).
Considerei por um tempo essa opção. Se lembrar de tudo parecia tão insuportável, talvez fosse mesmo melhor continuar esquecendo, continuar esquecido. Peguei o embrulho de dinheiro e observei. A mesma sensação de pânico, de estar encurralado, de estar preso a um ciclo infinito. Medo. Confusão. Dor. Era melhor não lembrar!
Guardei o dinheiro novamente. Deitei na areia e fiquei olhando para o céu. Estrelado, iluminado, infinito. Quis sentir novamente aquela liberdade. Quis sair seguindo todas as estrelas do céu, mas não podia. A agonia não deixava. Era grande demais! Eu não poderia viver dessa forma.
Levantei e comecei a caminhar pela areia. Eu tinha que lembrar! De qualquer jeito! Custasse o que custasse!
Andei por alguns metros e então, de repente, senti meu coração disparar! Estava ali, na minha frente, e no momento que encontrei tive a certeza de que era exatamente o que eu vinha procurando todo esse tempo. A única coisa que me faltava - e me bastava - para ser feliz.
Ela estava parada. Nos seus olhos uma expressão de quem parecia não acreditar. Nos aproximamos mais. Ela estava chorando e, para grande surpresa minha, percebi que eu estava chorando também.
FIM

Publicado por HEIDI COSTA às 2:08 AM

Quantos delírios?:



:: Eu

Nome: Heidi Costa (vulgo Monstrinha)
Idade:23
Ama: LIBERDADE
Detesta: Hipocrisia


Sobre o texto e a autora: O que há pra se falar sobre alguém que conhece a si mesma apenas o suficiente para não se compreender?
Estes textos são dedicados à liberdade. São tentativas diversas e muitas vezes desesperadas de tentar compreendê-la e sobre tudo alcançá-la.
Estou inclinada a acreditar que o caminho para a liberdade absoluta encontra-se na loucura também absoluta. Talvez exista um outro caminho, ou talvez a liberdade absoluta nem traga realmente a felicidade de quem a encontra.
Mas por enquanto ainda estou analizando a primeira opção.


:: Arquivos

::
Meus outros blogs:

Bolg de poesias:
Palavras em Chamas

Bolg Pessoal:
Gostei Disso


Bolgs de Amigos:
O Mundo Letrado de Bartoli.
Pro-lixo
Luzes em Vinil
Solta no mundo
Etc e Tal

:: Créditos