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Quarta-feira, Outubro 12, 2005

Fim de Primavera

Tudo começou por culpa dele próprio. Quem mandou ficar me provocando daquela maneira? Ele achava mesmo que eu não teria coragem? Quis pagar pra ver e teve uma baita decepção.
Eu corri pra não ver que ele vinha atrás, sem entender nada, disposto a me convencer a ficar. Fugi. Fugi de dois anos de alegria, porque era desesperador ver no que tinham se tornado. Fugi do dinheiro que eu havia perseguido, fugi da esperança, fugi do sonho.
E acordei num lugar totalmente novo, resolvida a nunca mais pensar no passado, nem para lembrar as coisas boas, nem para lamentar as coisas ruins. Tudo o que eu tinha era o presente e naquele exato momento minha única nescessidade era escovar os dentes.
Voltar para a minha casa estava fora de cogitação. Eu nunca mais pisaria naquele lugar de novo. Um chiclete de menta ia ter que resolver o meu problema por enquanto.
E foi ao comprar o chiclete que eu tive a certeza do que eu queria fazer: na padaria tinha um cartaz, comercial de cigarro, que mostrava a foto de uma montanha cheia de neve.
Eu sempre quis ver a neve e só há uma região aqui no Brasil que neva: O Sul. E era para lá que eu iria.
Ainda estávamos na primavera. Eu tinha tempo suficiente para chegar e me estabelecer até o inverno.
Seria perfeitamente possível. Eu podia pedir carona, roubar um carro, me esconder num caminhão, e por fim, se não quisesse fazer nada disso, ainda podia andar. O importante era que, depois de muito tempo, eu finalmente tinha vontade de fazer alguma coisa na minha vida.
Comecei pedindo carona num ônibus que estava indo para a Avenida Brasil (esse era o meio mais prático de sair do estado, até onde eu sabia). Não foi muito difícil. Disse ao motorista que havia sido assaltada (minha bolsa tinha ficado dentro do carro) e ele me deixou subir sem problemas.
A viagem era um pouco longa. Enquanto estive sentada no ônibus, fiquei lembrando de uma história que eu havia lido em um livro do Érico Veríssimo:
- "Conhece a história do perú? A gente risca com giz um círculo em volta dele e o cretino acredita que está preso. Não seja como o perú. Atravesse o círculo."
No momento aquilo tudo fazia muito sentido para mim. Eu não estava presa. Podia ir embora a hora que quisesse, pra onde quisesse e era isso que eu estava fazendo agora.
Desci do ônibus no último ponto que ele faria na Avendia. Estava num lugar feio, estranho, não quis saber o nome... esperei um ônibus que me levasse ainda mais longe. Não demorou muito.
Encontrar uma carona na Dutra Paulo já não foi tão fácil. Alguns carros paravam, mas eu não sentia confiaça para ir com eles, outros nem diminuíam a velocidade (esses eram a maioria).
Já estava no fim da tarde quando um rapaz parou um Uno azul no acostamento. Ele era magro usava uma camisa de flanela e parecia até um pouco doente. Mas alguma coisa nos olhos dele me dizia que ele era confiável. Aceitei a carona.
Ele estava calado. Ouvia uma música bastante interessante, um pouco depressiva. Preferi não falar nada também. Foi só no meio da noite que começamos a conversar. Ele perguntou se eu queria parar pra comer alguma coisa, eu disse que tudo bem. Nenhum dos dois tinha muito dinheiro (eu na verdade só tinha algumas moedas) então compramos umas frutas na beira da estrada e paramos no acostamento para comer.
Ele me agradeceu por não ter feito nenhuma pergunta no caminho (não estava muito disposto a coneversar naquele momento) e disse que me retribuiria fazendo o mesmo: sem perguntas! Queria apenas saber onde eu queria que ele me deixasse. Eu disse que o mais próximo possível da estrada que vai para o Paraná. Depois disso voltamos pro carro e conversamos assuntos leves. Livros, música, estrelas e filmes...
Na manhã seguinte passamos por lugares belíssimos. Kilômetros de montes e planícies de grama verdíssima e cobertos pelas flores de Primavera. Em uma certa altura havia um lago, um pouco afastado da estrada. Parecia um oásis no meio de um deserto de asfalto. Concordamos em parar o carro no acostamento e nos aproximar do lago.
A grama ainda estava úmida pelo orvalho da noite anterior e o sol já começava a esquentar. Ele sentou à beira do lago e começou a tocar seu violão. Eu não pensei duas vezes e mergulhei. De roupa e tudo! Foi um dos momentos mais agradáveis que já vivi.
Ficamos deitados na grama até o meio dia, desfrutando de uma paz profunda e totalmente desconhecida. O sol já estava quente e minhas roupas já estavam secas quando voltamos ao carro.
Chegamos à São Paulo no final da tarde. Ele disse que ainda não estava pronto para voltar à realidade e se ofereceu para me levar até o Paraná. Eu aceitei, muito agradecida. Entramos num shopping, ele sacou dinheiro e jantamos.
O dia havia sido ótimo e nós estávamos realmente felizes. Meu novo amigo resolveu que preicisávamos de mais algumas coisas para uma viagem tão longa. Comprou pra mim um vestido, um casaco e uma escova dentes (que foi o melhor presente que eu poderia ter recebido no momento!). Comprou algumas coisas para ele também. Disse que não queria mais juntar dinheiro. Que odiava o dinheiro e queria trasformá-lo em alguma coisa útil.
Compramos comida (muita!), cd's, alguns livros e depois fomos dormir num hotel bem legal.
No dia seguinte, quando acordei ele já estava pronto para partir. Havia acordado cedo e comprado um quantidade imensa de gasolina (os garrafões estavam enchendo o porta malas).
A carona até o Paraná se estendeu até o Rio Grande do Sul. Ficamos uma semana na estrada e quando chegamos já nos considerávamos verdadeiros amigos. Ele me revelou que nunca mais iria voltar pra casa. Que relsovera continuar viajando até acabar o dinheiro para gasolina e depois... quem sabe o que poderia acontecer? Perguntou se eu queria ir com ele até a Argentina, mas eu respondi que não. Queria mesmo ficar no Rio Grande do Sul até o inverno.
Nos despedimos na estrada. Passávamos por um vinhedo e as árvores estavam lindas. Decidi que era ali onde eu tinha que ficar. Eu não sabia o que dizer, foi uma sorte muito grande tê-lo encontrado e eu não conseguiria colocar em palavras. Ficamos em silêncio, olhando um para o outro por algum tempo. Parece que nossos olhos encontraram uma forma de se comunicar, pois eu pude ler nos dele o que ele nunca conseguiria dizer e sei que ele também compreendeu os meus. Depois de um longo tempo em silêncio eu saí do carro com a impressão de que nunca tinha sido tão compreendida em toda a minha vida. O Uno desapareceu pra sempre numa curva florida.
Eu estava mais longe do que jamais estivera em toda a minha vida. Parecia que ali, naquele lugar mágico onde as árvores eram floridas e o ar cheirava a uvas, nada do meu passado poderia me machucar. Todos aqueles sentimentos estavam para trás e eu podia pensar claramente, sem medo de que eles atrapalhassem o meu raciocínio.
Fui caminhando pelo vinhedo e decidi que era hora de lembrar. De repassar os fatos e minhas impressões pessoais sobre eles. Pôr um ponto final onde havia ficado reticências.
Eu sempre parti do princípio que tudo que uma pessoa de confiança me disser é verdade (é mais fácil do que viver desconfiando das pessoas que eu amo) então, desde que ele ganhou a minha confiança (especialmente depois que passamos a morar juntos) já sabia que devia pensar antes de qualquer coisa que me dissesse.
Pois bem. O motivo da briga nem era tão forte assim (já haviam tido piores): um simples telefonema! Custava ele ter me esperado terminar?
Mas não! As coisas tinham que ser feitas sempre na hora que ele queria! Desde que ele tinha conseguido aquela maldita promoção, sentia-se o chefe do mundo! Nem de longe lembrava o romântico professor de literatura de cinco anos atrás.
A briga (praticamente um monólogo) começou e com ela várias coisas bastante injustas começaram a ser jogadas na minha cara: "Eu sempre me esforço para fazer tudo o que você quer" (mentira), "sou sempre eu que peço desculpas" (mentira), "você nunca reconhece que está errada" (mentira). Menira, mentira, mentira!!!
A discussão já estava ficando irracional. Eu peguei a chave para sair e dar uma volta. Foi quando eu estava na porta que tudo começou: "Vai! Você sempre volta mesmo!" Isso tinha sido dito de uma forma muito pouco romântica. A intenção era me atingir e conseguiu.
- Olha que um dia eu posso não voltar...
- Só se eu tivesse muita sorte!
- ...
Dei a ele cinco segundos para pensar no que havia dito e se retratar (o raciocínio dele consegue ser bem rápido para ofender, então podia usar a mesma agilidade para se desculpar), mas ao invés de aproveitar a oportunidade, ele tratou de se jogar na própria cova:
- O que foi? Tá aí para por quê? Desistiu?
Bati a porta na cara do cretino e saí, com um sentimento de liberdade que há muito tempo eu não experimentava.
O som da porta batendo ecoou novamente na minha memória: um ruído surdo e precipitado ocupando o espaço de um diálogo sério que nunca havia existido. Lembrei do silêncio magoado que sempre se colocava entre nós dois quando ele me peguntava o que estava errado. Das palavras que eu nunca disse, mas que me consumiram furiosamente quando ele me perguntou porque estávamos brigando tanto ultimamente. E de todas as vezes que eu ironizei ao ouví-lo dizer que queria me fazer feliz.
Percebi que nunca havia realmente tentado fazê-lo enxergar o quanto havia mudado. Eu o culpava em silêncio, tentando não me envolver em discuções. Esperava que ele percebesse por si mesmo que eu estava infeliz... e a porta se fechou.
E de repente, no meio de todas aquelas árvores eu descobri estava sozinha de novo. Que quando as flores da primavera morressem e não pudessem mais colorir o meu caminho o verão seria vazio e o inverno seria frio demais.
As palavras que ouvi voltavam a fazer sentido em minha lembraça: "Vou viajar até acabar o dinheiro da gasolina". "Não seja como o perú".
Mas talvez o perú não fosse mesmo tão cretino. Tão ele seja apenas sábio o suficiente para saber que tudo o que ele precisa está realmente ali, dentro do círculo de giz. E talvez... durante a noite, quando ninguém está vendo, ele saia tranquilamente para dar o seu passeio.
Sim, esse mundo imenso e infinito é interessante apenas para um passeio descompromissado, mas quando o verão acabar eu vou querer estar dentro do meu círculo e voltar para quem é realmente importante pra mim.
Caminhei o resto do dia pelos vinhedos. O cheiro doce do ar perfumava as lembranças da viagem, que me acompanhavam com uma sensação de sonho acordado, de fim de primavera.

FIM
Quantos delírios?:
Publicado por HEIDI COSTA às 10:12 AM

Segunda-feira, Outubro 03, 2005

Fim de Verão

Eu já estava a pelo menos uns dois meses andando sem rumo. Nem sei quantos bairros do Rio de Janeiro eu havia percorrido àquela altura. Dormindo na rua, debaixo de marquises, comendo salgados e refrescos que algumas pessoas me pagavam (eu não queria gastar aquele dinheiro) e com a ligeira sensação de que alguma coisa estava muito errada naquilo tudo.
Essa impressão começou no terceiro dia daquela loucura. Tudo o que eu conseguia lembrar era que eu acordara dois dias atrás, com o sol queimando meu rosto e a areia da praia de Copacabana provocando coceiras por todo o meu corpo. Mais nada! O que eu estava fazendo ali? De onde viera? Qual era o meu nome? Vazio... minha memória estava totalmente em branco. Levantei, e comecei a andar lentamente pelas ruas, sem conseguir formar nenhum raciocínio completo. Dois dias depois eu já começava a pensar melhor. Os questionamentos começavam a surgir. E foi então que, passando pela frente de uma porta espelhada eu me vi pela primeira vez.
Aquilo era impossível! Como eu poderia ser um mendigo, se estava vestido com aquelas roupas? Aquele sapato era muito confortável e parecia caro! Coloquei a mão no bolso. Definitivamente, eu não era um mendigo!
Mas então, como? Como eu perdera a memória? Como aquele dinheiro todo fora parar no bolso da minha calça? Como eu havia dormido na areia da praia, como um vagabundo qualquer? Como, e por quê?
Sentei atônito, num banco de uma praça qualquer. Eu tentava pensar, mas cada vez que eu fazia um pouco mais de esforço nesse sentido minha cabeça começava a doer insuportavelmente. Fiquei olhando o movimento dos automóveis na via. Era meio dia e o calor estava insuportável, o que fazia minha dor de cabeça aumentar ainda mais. Mas então um ônibus parou no ponto à minha frente. Estava pintado de uma cor azul tão refrescante, tão relaxante que minha dor de cabeça passou enquanto eu o observava. Ele começou a se mover e eu resolvi seguí-lo. É claro que ele corria bem mais rápido do que eu, mas acompanhava o seu percurso até perdê-lo de vista (normalmente em uma esquina) e quando chegava até o ponto em que o tinha visto, ficava parado até passar outro ônibus da mesma linha, para eu continuar seguindo.
Demorei um dia inteiro para chegar ao ponto final dele. O momento mais perigoso dessa caminhada foi quando tive passar por dentro de um túnel que não tinha acesso para pedestres, mas eu não podia desistir. Naquele momento, seguir aquele ônibus era a única causa de eu estar vivo. Fiquei sentado perto do ponto final, esperando algum dos ônibus seguir para a garagem. Quando vi que um deles estava saindo, implorei ao motorista que me desse uma carona. Acho que a minha aparência (já estava sem fazer a barba a uns três dias, e sem tomar banho, idem) comoveram o condutor, que me deixou subir com a condição de que eu saltasse um ponto antes de ele chegar. Saltei no ponto combinado e fui seguindo o ônibus a pé.
Chegar na frente daquela garagem de ônibus foi uma das sensações mais maravilhosas que eu me lembrava de ter experimentado nessa vida! O muro estava todo pintado com as cores dos ônibus e eu senti uma paz tão consistente, um alívio tão profundo que meus olhos se encheram de lágrimas. Encostei na marquise de uma casa abandonada que ficava do outro lado da rua e fiquei contemplando aquele muro até cair no sono. Permaneci naquele mesmo lugar por quinze dias.
Durante esse tempo alguns funcionários da garagem já me conheciam. Eu contei que não sabia nada sobre o meu passado e que gostava de ficar ali, olhando para o muro. Um deles caiu na gargalhada quando eu contei como havia ido parar ali, mas logo os outros o repreenderam, dizendo que aquilo não tinha graça nenhuma. Eles estavam morrendo de pena de mim, mas eu não conseguia entender o motivo disso, já que me sentia totalmente feliz, olhando para aquelas cores celestiais. O meu mundo estava completo e quando eu dizia isso para eles, eles pareciam sentir ainda mais pena! Traziam pão e café de manhã e à noite. Na hora do almoço, traziam uma quentinha e um copo de refresco pra mim. Conseguiram até um lugar para eu tomar banho, todos os dias.
Infelizmente, depois dos quinze dias as minhas dores de cabeça voltaram. O verão tinha terminado e os dias estavam úmidos e chuvosos. O azul daquele muro agora me dava uma sensação de afogamento e de perdição. Levantei e fui embora, sem me despedir dos meus amigos(eles com certeza estaria usando camisa azul e seria insuportável chegar perto deles). Pensei em deixar meu nome escrito na parede onde eu estivera hospedado, para eles lembrarem de mim, mas como eu não tinha nome, fiz apenas um buraco e fui embora.
Não demorou muito para que eu encontrasse outro motivo para viver.
Eu estava caminhando a duas horas quando começou um temporal. Corri para baixo de uma árvore para tentar me abrigar. Alguma coisa me fez olhar para cima e eu vi que o galho mais forte apontava para uma rua estreita.
Resolvi seguir nessa direção e lá estava outra árvore, seu galho principal apontando para outra direção. A essa altura eu já estava ensopado, mas nada mais me importava, a não ser seguir os galhos das árvores. Eles pareciam tão seguros e fortes em suas resoluções que me transmitiam uma confiança irresistível! Fui seguindo alegremente, dançando debaixo dos pingos que caíam sobre mim. Depois de três dias chegei ao Horto. Eu estava em êxtase! Todas aquelas árvores firmes e seguras me mostrando o caminho! Eu queria estar no meio delas, cercado por toda aquela sabedoria e estabilidade que me encantavam!
Entrei na mata e fiquei andando em círculos por quarto dias. As árvores me aconselhavam! Cada uma era especialista em uma área e por isso me encaminhavam de umas para as outras, para que meu tratamento fosse completo. Eu comi algumas frutas e insetos e bebi água da chuva. Até que fui encaminhado para a mais sábia das árvores. Todos os seus galhos apontavam para a mesma direção: o leste. Senti que havia alcançando o auge de todos os meus anseios e necessidades. Me aproximei o máximo que pude do tronco e finquei meus pés na lama, como se fossem raízes.
A comunhão com essa árvore majestosa durou apenas uma noite. As primeiras horas do dia seguinte foram chuvosas e o vento acabou derrubando o galho mais alto e mais forte da Grande Árvore e por pouco não me acertou!
Senti que meu mundo vinha abaixo, junto com aquele galho. O barulho da queda despertou alguma coisa dentro de mim. Um sentimento de tristeza e de solidão que vem me acompanhando até hoje. Pela primeira vez eu senti que faltava alguma coisa. Alguma coisa que não estava naquela floresta, nem nos desenhos dos ônibus e nem em nada do que eu tinha visto durante aquela minha jornada. Alguma coisa que era o real motivo da minha existência, e que eu tinha desesperadamente que encontrar.
Pela primeira vez tive consciência de que eu estava sujo - e aquilo me incomodou. Havia uma cachoeira no meio da mata. Tomei um banho, lavei minhas roupas. O dinheiro ainda estava lá, embrulhadinho num saco plástico. Olhar para ele me dava um mau pressentimento. Parecia que ele despertava a memória emocional do estado em que eu me encontrava quando o adquiri. Tive vontade de jogá-lo no riacho que corria até sumir de vista. Tive vontade de rasgá-lo e, não sei porquê, tive vontade de xingá-lo. Mas algum instinto desconhecido me fez guardá-lo.
O sol do inverno estava fraco. Eu fiquei algumas horas nu, esperando que minha roupa secasse. Pendurei-as em um galho de árvore e também tive vontade de abandoná-las. Por alguns momentos cheguei mesmo a odiar aqueles pedaços de roupa bem cortada, que pareciam uma cela móvel. Naqueles momentos em que fiquei nu, no meio da floresta, experimentei uma sensação de liberdade tão sublime, que não pude deixar de sentir um certo pânico ao pensar em me vestir outra vez. Meu corpo parecia reconhecer nessa sensação de nudez um prazer impagável. Mas o vento frio de inverno me fez querer voltar a "prisão" outra vez. E de repente me vi pensando em como a vida era esquisita: nos impelia a todo momento de abrir mão do prazer e da liberdade em troca de um conforto e de uma segurança discutíveis. Eu, na verdade, não me lembrava de nenhuma outra situação que me fizesse sentir assim, mas de alguma forma eu sabia que já havia passado por muitas.
A roupa secou, eu me vesti, e dentro daquela armadura, senti que estava preparado para voltar ao mundo. Na verdade, percebi que estava realmente ansioso por isso.
Saí correndo da floresta e continuei correndo pelas ruas até perder o fôlego. Eu tinha pressa de encontrar! Aquela agonia dolorida no meu peito, me lembrando a cada segundo que eu estava vivendo à toa, aquela sensação de afogamento, de vazio, de solidão... aquilo era urgente!
Mas onde? O quê?
Os dias seguintes foram de uma tristeza sombria e de um desespero inacabável. Havia uma interrogação, um absurdo, um revolta em tudo o que e eu tentava fazer. Por quê? Pra quê? Eram as perguntas que não queriam calar. "Pra quê estou andando assim? Pra quê estou respirando? Por quê? Deve existir algum motivo." Mas quando eu procurava uma distração, uma resposta, um alívio só encontrava a certeza interna de que não era nada daquilo o que eu queria.
As árvores agora pareciam debochar das minhas dúvidas, das minhas necessidades, da minha dor. Elas não podiam me compreender. Eram auto-suficientes, com suas raízes profundas, seus galhos altos, sua força e estabilidade. Não sentiam fome, frio, e não sentiam o vazio que estava me devorando por dentro.
Foi quando percebi que não poderia mais viver assim. A liberdade havia acabado. A alegria que eu sentia em encontrar prazer nas coisas simples havia sumido. Estava faltando alguma coisa! Resolvi voltar ao lugar onde tudo aquilo havia começado: a praia. Se ela não me desse a solução, as profundezas do mar poderiam ao menos calar a minha dor, para sempre.
Eu agora tinha pressa em chegar. O caminho parecia muito mais longo do que da primeira vez que o percorri. Demoraram alguns dias para que eu encontrasse a praia novamente.
Estava noite. O brilho pálido da lua parecia intensificar o frio que cortava os meus ossos, a minha carne, o meu coração. Sentei na areia e me entreguei aos pensamentos, como um mártir que se entrega a dolorosos sacrifícios, sabendo que essa é a última saída, a única solução.
Algumas coisas foram ficando claras: eu já conhecia anteriormente o que estava procurando. Eu só precisava lembrar... eu também sabia, de alguma forma, que lembrar do meu passado não seria agradável, muitas coisas ruins haviam acontecido (sensação de afogamento, abandono, prisão). Se eu escolhesse esquecer tudo pra sempre poderia tentar me acostumar àquela agonia (que certamente não acabaria) e continuar a viver livre e despreocupado (talvez voltar para a floresta).
Considerei por um tempo essa opção. Se lembrar de tudo parecia tão insuportável, talvez fosse mesmo melhor continuar esquecendo, continuar esquecido. Peguei o embrulho de dinheiro e observei. A mesma sensação de pânico, de estar encurralado, de estar preso a um ciclo infinito. Medo. Confusão. Dor. Era melhor não lembrar!
Guardei o dinheiro novamente. Deitei na areia e fiquei olhando para o céu. Estrelado, iluminado, infinito. Quis sentir novamente aquela liberdade. Quis sair seguindo todas as estrelas do céu, mas não podia. A agonia não deixava. Era grande demais! Eu não poderia viver dessa forma.
Levantei e comecei a caminhar pela areia. Eu tinha que lembrar! De qualquer jeito! Custasse o que custasse!
Andei por alguns metros e então, de repente, senti meu coração disparar! Estava ali, na minha frente, e no momento que encontrei tive a certeza de que era exatamente o que eu vinha procurando todo esse tempo. A única coisa que me faltava - e me bastava - para ser feliz.
Ela estava parada. Nos seus olhos uma expressão de quem parecia não acreditar. Nos aproximamos mais. Ela estava chorando e, para grande surpresa minha, percebi que eu estava chorando também.
FIM

Quantos delírios?:
Publicado por HEIDI COSTA às 2:08 AM

Contos ou Delírios?