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6:25 PM
Desacato.
Ele parou em frente à delegacia e respirou fundo: precisava de fôlego, muito fôlego para aguentar o tempo que fosse nescessário.
1,2,3...
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!
O grito saiu num volume maior do que ele mesmo imaginava que poderia gritar. Isso era bom. Continuou gritando.
A sensação era excelente. Á princípio as pessoas passavam por ele com cara de assustadas, mas depois de cinco minutos, nunguém mais passava por ali. Atravessavam a rua, com medo e seguiam seus caminhos, ou simplemente paravam do outro lado, observando, tentando compreender o que estava acontecendo.
Finalmente um policial saiu apressado de dentro da delegacia:
- Senhor, está tudo bem?
Ele continuou gritando. Era óbvio que não estava tudo bem! Estava tudo terrivelmente errado e ele continuava gritando sua indignação.
- Senhor, peço que pare de gritar. Se o senhor está com algum problema, nós podemos conversar para tentar resolvê-lo.
Não! Ele não tinha a menor intenção de parar. Fez dois segundos de silêncio para recuperar o fôlego, e então, olhando firmemente nos olhos do policial, voltou a gritar. Ainda mais alto.
- Senhor, mais uma vez peço que pare de gritar.Se não parar de gritar agora mesmo, seu ato será considerado como desacato e eu vou ter que detê-lo.
O policial estava ficando irritando. Dava para perceber pelo seu tom de voz e pelo olhar que lançava por trás dos óculos discretos que usava.
Mas ele continuou gritando.
O outro homem, depois de alguns instantes se irritou ainda mais:
- Agora já chega! O senhor está preso. Vamos ver por quanto tempo continua gritando na cela.
Ele foi algemado e levado às pressas para o interior da delegacia. Olhou uma última vez para o aglomerado de pessoas que haviam se juntado em volta para apreciar a cena.
Algumas olhavam desconfiadas, outras sorriam com deboche, outras balançavam suas cabeças em desaprovação. Mas todas, sem excessão estavam incomodas. Seus gritos as pertubavam e isto estava claro em seus olhos.
Foi levado ao delegado e em poucos segundos todo o prédio já estava tomado por seus gritos. Os outros sons de protesto, de injúrias, de máquinas, haviam sido abafados por completo.
- O que está acontecendo aqui?
Perguntou o homem de trás da mesa.
- Este senhor parou na frente da delegacia e começou a gitar. Não consegui convencê-lo a parar nem mesmo sob a ameaça de prisão.
O policial falava alto, esforçando-se para que sua voz não fosse abafada pelo grito grave do novo prisioneiro.
- Muito bem, senhor. Está com algum problema, ou devo presumir que é só mais um engraçadinho que veio aqui perder meu tempo?
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!
- Humpf! O senhor está sendo preso, compreende isso? Por desacato à autoridade.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!
- Preciso do seu nome. O senhor vai ser fichado. Tem direito a fazer uma ligação.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!
- Eu já procurei, senhor. ele não tem carteira. Nenhum documento, nada que nos dê uma pista de seu nome, de onde mora, nada!
O delegado, acostumado a passar o dia no meio da agitação e do barulho daquela que era uma das delegacias mais movimentadas da cidade, pareceu surpreendentemente abalado com esse novo ruído.
_ Pois então tire as digitais desse infeliz e jogue no xadrez! Acho que é isso que ele quer!
Quando foi levado para o interior das celas, surpreendeu-se com o odor desagradável do ambiente. Seus gritos, à princípio pareceram divertir os presos, que o receberam com gargalhadas e gritos de ofensas bem humorados.
O policial estava agora intrigado com o sujeito e preferiu colocá-lo numa celas reservada para presos não perigosos.
O homem sentou-se pacientemente num canto da cela, respirou fundo aquele ar fétido e continuou com o seu grito. Percebeu com estranhesa que ainda não se sentia preso, mesmo depois que as celas já haviam se fechado sobre ele a mais de uma hora.
- Senhor...
O carcereiro parou com respeito à porta do delegado.
- O que é?
- Senhor, o homem não pára de gritar! Está irritando os outros presos. Estão todos xingando e batendo nas celas, muito irritados...
- Pois então faça o homem calar a boca, oras!
- Mas, senhor... como eu faço isso?
O policial lançou um olhar significativo para o funcionário:
- Não vai querer agora que eu te ensine o seu trabalho, né?
- Com todo o respeito, senhor. O homen não é criminoso! É um lunãtico! Um louco! Eu não vou bater em louco! Deus me livre!
E fez o sinal da cruz.
O delegado soltou um suspiro exasperado.
- Então deixe o homem gritando lá!
- Senhor... se ele continuar por muito tempo... acho que vai ser espancado.
- Ponha ele numa cela com os "cagões".
- Ele já está lá. Mas os homens estão muito irritados. Estão com dor de cabeça e ameaçam perder a paciência a qualquer momento.
- Mas que inferno! Como se eu já não tivesse problemas suficientes nessa vida! O que você quer que eu faça, homem de Deus?
- Acho que... acho que o senhor deve tirá-lo de lá. Só isso...
O delegado chamou o policial que havia feito a prisão. O carceriro voltou ao seu trabalho.
- Já encontrou a ficha do homem?
- Ainda não, senhor. O senhor sabe como são esses arquivos de digitais. Pode levar dias!
- Me diga, por que diabos você trouxe este louco para dentro da minha delegacia?
O delegado estava irritado e deu grito quase tão alto quanto o do prisioneiro misterioso.
- Ele não parava de gritar, senhor. Bem aqui na frente.
- e você resolve trazê-lo aqui pra dentro! Graaande!! Agora eu não posso entregá-lo pro pinel enquanto não souber o nome do infeliz e você me diz que isso pode levar dias! Tem idéia do quanto isso me aborrece?
- Desculpe, senhor... eu... não sabia o que fazer.
- Pois eu vou te dizer o que fazer: esquece essa porra de arquivo, essa porra de digitais! Pega esse infeliz, esconde ele num camburão e leva pra bem l,onge daqui! Pra qualquer lugar onde ele não consiga voltar!
- Mas...
- Mas o que??????????
- Nada senhor. Vou fazer isso. Pra onde eu o levo?
- Pra casa da sua mãe! Pra puta que o pariu!
O policial saiu da sala assustado e irritado. Era a primeira vez que levava uma bronca daquelas! Agarrou o prisioneiro com fúria nos olhos e o tirou de dentro da cela. Os prisioneiros fizeram uma festa de gritos e depois que os dois saíram, o cárcere ficou em silêncio absoluto. Pela primeira vez em toda a história da delegacia.
- Ora! cale essa boca!
Disse o policial, jogando o homem com violência no camburão.
Mas ele continuava gritando. Sua gargante doía e seu grito já não tinha mais a mesma potência, mas ele fazia sair o mais alto que podia e mesmo algemado naquele camrurão, que começava a se dirigir por lugares escuros para fora da cidade, ele percebeu que não sentia medo!
O policial dirigiu por quase três horas. Sua cabeça latejava de dor e ele por várias vezes sentiu a fúria invadí-lo. Uma vontade enorme de bater o carro contra um muro, de jogar o cambruão de um percipício... qualquer coisa violenta o bastante para destruir tudo!
Finalmente, parou num matagal escuro, próximo a um pequeno lago, já a vários quilometros da cidade. Retirou o homem do camburão o jogou-o no chão enlamaçado. Puxou seu revolver e apontou para a cara do desconhecido:
- Você vai parar de gritar agora, seu merda! Por bem ou por mal!
O homem não parou. o policial sentiu o gatilho coçando em seu dedo. Aquele homem caído, que provavelmente nunca fizera mal a ninguém, que provavelmente era um pobre coitado louco, o fazia sentir mais furioso do que todos os outros criminisos verdadeiros que já havia encontrado em todos os seus anos de profissão.Era estranho e assustador perceber isso!
Mas ele não era um assassino! Não ia matar um homem só por que estava gritando!
Ele agarrou o homem pelo colarinho e disse, olhando em seus olhos, já sentindo sua raiva dar lugar a um outro tipo de sentimento: uma pena quase repeitosa pelo sujeito:
- Escuta aqui! Vá ser maluco em outro lugar, entendeu? Não volte pra lá! Não me cause mais problemas!
Ele virou de costas e afastou-se, em diração ao carro outra vez, deixando o homem caído no chão.
Abriu a porta do camburão e ia entrar, quando ouviu uma voz já quase rouca atrás de si:
- Por que?
A surpresa de ouvir aquele homem que ele já consederava totalmente insano, fazer uma pergunta, num tom de voz racional, quase o fez cair pra trás. Ele segurou na porta e agarrou a arma com medo... de alguma coisa.
- Por que o que? - Perguntou, tentando conter o susto.
- Por que o grito incomoda TANTO?
O policial sentiu um arrepio ao ouvir a intensidade da palavra "tanto". Ele sabia a que "tanto" estava se referindo: aquele homem havia incomodado a todos em volta de si naquele dia. havia feito pessoas de bem assistirem com aprobação um inocente ser preso, havia irritado um delegado que convivia com barulhos muito mais ofensivos a vida inteira, havia feito covardes ladrões de galinha querem espanca-lo, havia silenciado um cárcere cheio de criminosos furiosos e quase havia tornado ele próprio - um policial burocrático - num assassino.
Voltou-se para o homem, tentando imaginar uma resposta para sua pergunta, mas ele já estava dormindo, exausto, com o rosto voltado para o chão.
O policial deu a partida no carro. Não precisava mais responder ao homem, mas a pergunta ainda o incomodava.
A única coisa que o homem havia feito foi usar sua própria garganta livremente, da maneira que queria. Sabe-se lá o porquê. E o por que também não interessava...
Ou interessava?
E de repente ele se lembrou do que havia sentido quando o homem parou de gritar e lhe fez uma pergunta: MEDO.
Era isso que aquele homem tinha causado em todas as pessoas á sua volta naquele dia, com sua aparência respeitável e simples, agindo como um louco!
MEDO!
Era por isso que o motivo importava! As pessoas precisavam saber por que ele estava daquele jeito, por que adimitir que nenhum evento em especial o havia levado aquilo seria também adimitir que qualquer um podia agir da mesma forma. UQe qualquer um podia, em sã consiencia, começar a gritar simplesmente porque tinha vontade.
Essa liberdade exagerada de expressão e sentimentos assustava as pessoas. E essa era a pergunta: "POR QUÊ?"
O policial pensou mais um pouco sobre o assunto, enquanto dirigia a estrada escura de volta pra casa. Abriu a janela, sentindo ele prórpio a vontade de gritar, na solidão escura daquela noite. Ninguém jamais saberia...
E de repente ele percebeu!
O velho policial soltou uma gargalhada gostosa, sentindo uma satisfação que há muitos, muitos anos mesmo, mão esperimentava.
Ele e sua família tiveram um final de semana excelente!
Rabiscado por Monstrinha
Quantos delírios?:
2:15 AM
Era uma vez um sorriso.
Ela queria tanto fugir!
Queria ter correntes que a prendessem, cordas, paredes, cercas, arame farpado...
Qualquer tipo de armadilha física, por mais mortal que fosse...
Qualquer obstáculo vísivel e palpável que ela pudesse enxergar como o inimigo a ser vencido...
Mas o desesperador era exatamente a falta das cadeias... aquela pseudo liberdade que a fazia querer explodir em mil pedaços cada vez que juntava coragem para encarar a realidade: estava presa a sua própria vida.
Não era à rotina de um escritório, à monotonia de um vício, à dor de uma doença... sua prisão era ela mesma!
Sua própria incapacidade, seua própria insuficiencia, sua própria insignificância!
Ela queria fugir de si mesma.
Ser qualquer outra pessoa, nem melhor, nem pior... só não queria continuar a ser quem era.
Ela realmente odiava existir.
Odiava a grandiosidade de seus planos e sua completa incapacidade de alcançá-los.
Odiava não ter a miudeza de pensamento de quem só quer feliz... de qualquer jeito, de qualquer forma.
Odiava a certeza quase absoluta de que, muito provavelmente, nenhum de seus maiores sonhos seria realizado.
Odiava saber que ela jamais se conformaria com isso.
Odiava prever que ela sempre se sentiria uma fracassada!
Naquela noite ela sentiu a pressão de todos os olhos, de todas as pessoas que a amavam (e que ela amava também).
Sentiu o peso de todos olhares esperando seu sorriso, de todas os ouvidos esperando suas palavras alegres...
Ela não podia mais sorrir!
Meu Deus! Ela estava tão cansada de sorrir!!!
Sorrir era tão malditamente fácil!
Era tão estupidamente simples ficar feliz e ignorar todo o resto!
Ignorar a miséria que era sua própria existência!
Era fácil sentir-se feliz por um dia, por uma noite... por uma semana inteira!
Uma atriz tão boa que enaganava até a si mesma!
Mais ela não queria mais sorrir... não aquele sorriso!
E também não queria chorar!
Pra quê jogar sobre pessoas boas todo o peso de seus fracassos?
Ninguém poderia ajudar!
Ninguém podia fazer nada, porque não tinha nada a ser feito!
Nenhuma decisão prática poderia mudar droga nenhuma!
E mais uma vez ela queria fugir!
Fugir ao menos do peso dos olhos... fugir ao menos da angústia das decepções que ela certamente veria!
Nada nunca mais seria o mesmo!
Mas ela ainda estava presa!
Não tinha competência nem pra fugir! Nem por um dia inteiro!
Ela sabia que voltaria!
Que merda! Ela foi dormir sabendo que voltaria!
Só tinha coragem, mais nada!
De que vale a coragem quando você tem um coração?
De que vale a coragem sem o caminho, sem o desafio...
De que vale a coragem quando não se está só?
Provavelmente nem seu desejo de solidão seria satisfeito.
Provavelmente só serviria para magoar quem não tem nada a ver com isso.
Provavelmente tudo voltaria a ser como era antes...
A história ainda não acabou.
Mas duvido muito que algo diferente possa acontecer para que valha a pena continuá-la.
Rabiscado por Monstrinha
Quantos delírios?:
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